segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

POR FRANKLIN FILGUEIRA*


O QUE ESPERAR DA ECONOMIA EM 2010


O ano de 2010 deverá ser marcante para o momento histórico da economia brasileira. A demonstração clara de fortaleza, a partir do comportamento praticamente incólume diante da crise financeira global, despertou definitivamente o interesse do capital internacional e dos investidores nacionais. Sem dúvida, o Brasil hoje rima com segurança no mundo globalizado do capital.


Pode parecer exagerado o que digo acima, mas reflete a euforia que tem tomado conta da cabeça dos empreendedores e investidores por aqui e mundo afora. Obviamente, exageros estão embutidos nestas expectativas, mas o que de concreto se pode afirmar é que, agora, somos um dos centros da atenção do mundo. Ademais, em especial para mim, nenhuma grande surpresa, pois já me referia ao moderado efeito da crise global sobre nossa economia, aqui mesmo no Jornal De Fato em dezembro de 2008.


O PLANO MACROECONÔMICO NACIONAL


O país encontra-se em posição privilegiada – e reforçada no pós-crise – em quase todos os fundamentos ( juros, inflação, endividamento, comportamento positivo do PIB, emprego crescente, câmbio, reservas, contas externas etc.), indicando que as previsões divulgadas na mídia são realmente alcançáveis, ou seja, crescimento do PIB em 2010 superando os 5%. Deveremos enfrentar um forte crescimento em alguns setores específicos, como a indústria de bens de consumo durável, os serviços, a produção de alimentos e a construção civil.


As ações do governo federal, em particular, dedicadas ao estímulo da economia têm se mostrado eficazes, e as montanhas de dinheiro destinadas ao investimento público no próximo ano – eleitoral, por acaso – deverão fazer a diferença para a economia nacional. As ações de redução de tributos deverão perdurar mais tempo do que imaginávamos, concentradas na construção civil, eletrodomésticos e automóveis. Por sinal, a produção de automóveis deverá bater novos recordes.


Mas, dois grandes segmentos vão destacar-se individualmente: o da tecnologia e o da produção “verde”. É uma verdade inexorável que a tecnologia incorporou-se à vida moderna, de modo tal que as pessoas não conseguem se desvencilhar dela. Por outro lado, e apesar do insucesso da COP15, cada vez mais a consciência ecológica levará os consumidores em direção aos produtos ecologicamente corretos. Em 2010, as prateleiras estarão abarrotadas de produtos orgânicos – certificados – e as pessoas estarão ainda mais preocupadas com a origem da carne que consomem, por exemplo. É preciso considerar ainda a enxurrada de novos produtos que deverão ser colocados no mercado, incorporando características ecológicas na sua receita. Os empreendimentos calcados em tecnologia e ecologia, todos eles, alcançarão desempenho diferenciado.


Os bancos, as factorings e as financeiras (e todo o setor financeiro do país) alcançarão ainda maior rentabilidade do que a recorde obtida em 2009. Numa economia em expansão, o crédito tem poder desproporcional de efeitos. Além disso, há um grande estoque de capital financeiro nacional e internacional “maluquinho” para encontrar tomadores ávidos por consumo, e despreocupados com os custos.


O consumo deverá ser a grande preocupação da equipe econômica do governo, que deverá administrar o equilíbrio geral enfrentando aumento rápido da demanda agregada, e uma oferta de bens e serviços que não deverá crescer tão rapidamente assim. Afinal, a produção carece de infraestrutura para acontecer de fato, e isto leva algum tempo. A resultante deste virtuoso e relativamente rápido desequilíbrio de forças sobre o nível de preços – leia-se “inflação” – deverá ser uma pequena elevação da taxa de juros. A ressalva que faço aqui a esta possibilidade deve-se tão-somente à possibilidade de manobras que fujam um pouco à linha adotada pelo Banco Central por estarmos em ano eleitoral e pela provável mudança na sua presidência, com a saída do Meireles para candidatar-se a cargo eletivo.


Quanto ao consumo propriamente dito, deverá confirmar algumas das principais tendências em curso, que podem ser resumidas na sustentabilidade da produção, na “urbanidade” (maior exigência dos consumidores das grandes cidades), a avaliação do consumidor em tempo realtwitter, Orkut, blogs etc. – luxo e sofisticação, ecofacilitação, ênfase no CRM (Gestão do Relacionamento com o Consumidor), “generosidade” embutida nos produtos (compro isto por ajudar a tal causa) e os negócios baseados nos perfis das redessociais.


O PLANO REGIONAL


O nordeste crescerá em importância na economia do ano que vem, em especial pelo interesse dos investidores nas nossas riquezas naturais e na produção agrícola. Entretanto, os estados do Ceará e Pernambuco merecerão ainda mais destaque. No nosso vizinho “colado” o PIB em 2010 deverá ser comparável ao da China, ou algo em torno de 8%, como decorrência da ação política do governo Cid Gomes, que transformou o estado num canteiro de obras: siderúrgica Ceará Steel, refinaria da Petrobrás, expansão do Porto do Pecém, canal de irrigação, duplicação de centenas de quilômetros de rodovias federais e estaduais, implantação de várias indústrias no interior do estado, dentre outras ações de menor monta. Os pernambucanos têm ações similares, merecendo destaque a construção da refinaria da Petrobrás, que é um dos maiores investimentos individuais em curso no país.


Lamentavelmente, nós potiguares assistiremos o Pernambuco e o Ceará levando nosso óleo cru para ser beneficiado por eles nos próximos anos, perdendo o “filé” da geração de impostos e empregos. Ademais, não enxergamos nenhuma outra obra de grande porte que mereça destaque no nosso estado.


O PLANO MUNICIPAL


Mossoró tem enfrentado grande crescimento econômico na última década, o que levou o seu PIB a pouco mais que dobrar, entre 2002 e 2008 (104%), resultando num PIB percapita 10% maior que o da nossa capital, e na criação de 15 mil novos empregos formais na cidade.


Em 2010, esta ascensão perdurará, puxada pelo crescimento da construção civil, dos serviços – em especial o comércio – e o extrativismo. A entrada em operação da Porcelanatti e de mais algumas empresas do Distrito Industrial, a realização de algumas obras estruturantes, como o Complexo Viário da Abolição, as operações das grandes redes varejistas e o lançamento de empreendimentos imobiliários importantes, deverão incrementar a atividade econômica local, a despeito da limitada ação da Prefeitura Municipal neste particular. É bem provável que as contas municipais continuem enfrentando desajustes, notadamente pela redução de receitas advindas de impostos como o IPI (via FPM) e da “surpresa” ocasionada pela crise financeira global, revelada em 2008.


Em síntese, a cidade continuará crescendo e pujante em 2010, sofrendo pouca influência das políticas públicas municipais e estaduais, mas beneficiando-se das ações do capital privado e de programas da política de desenvolvimento do governo federal.


* Economista, Diretor da Índice Consultoria Empresarial, Professor da UERN.

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