domingo, 8 de junho de 2014

RESPEITEM A MULHER CERVEJEIRA


Por que propagandas de cervejas são tão machistas? Se você pensa que mostrar mulheres peitudas e gostosas servindo cervejas a machos beberrões que se divertem no bar é coisa de brasileiro, saiba que está redondamente enganado. Comerciais e anúncios de cervejas são, em sua maioria, sexistas em qualquer parte do mundo.

Embora a feitura da cerveja tenha sido – desde sua origem e por séculos – uma tarefa quase que exclusivamente feminina isso começou a mudar quando as cervejas deixaram de ser feitas em casa e passaram a ser comercializadas em tavernas e pubs. A revolução industrial praticamente tirou a manufatura das mãos das mulheres quando a cerveja começou a virar negócio.

Se a cerveja era bebida e feita por mulheres desde os tempos mais remotos, por que hoje a indústria cervejeira faz tanto esforço para alijar a parte feminina do público consumidor? O marketing da Grande Indústria sabe dos números que apontam que cerveja é bebida mais por homens. Uma pesquisa da craftbeer.com sobre o mercado americano apontou que apenas 25% das mulheres do país consideram cerveja sua bebida alcoólica favorita. Podemos pensar o que veio primeiro: o ovo ou a galinha? Mulheres bebem menos cerveja porque não gostam mesmo ou porque sempre anunciaram a espumosa como “bebida para homem”?

Outro resultado dessa mesma pesquisa pode indicar um caminho: se considerarmos apenas o público amante de cervejas artesanais, a porcentagem de mulheres que dizem ser a cerveja sua bebida favorita cresce para 37%. A cultura cervejeira artesanal, por princípio e em geral, valoriza produtos locais, faz parcerias para ajudar suas comunidades, não tem ganas de distribuição de massa e, aparentemente, tem maior potencial para atrair mulheres, tanto para a produção como para a comercialização e apreciação de suas cervejas.

Mesmo assim, o meio cervejeiro artesanal é predominantemente masculino e ainda traz resquícios do sexismo herdado da Grande Indústria e que estão na memória de todos. Abundam imagens de gostosas e pinups nos rótulos e no marquetismo baseado no “sou macho, bebo cerveja forte pra pegar mulher”. Por exemplo: ainda que traga uma gordinha no rótulo, a cerveja Gordelícia cai na vala fácil da exposição da sensualidade da moça, assim como a Refrescadô de Safadeza. Note-se que são duas ótimas cervejas, mas que no conceito ficam bambas entre a piada botequeira e a fórmula “macho bebe, mulé estimula”. As americanas da Acme e da Lagunitas (deliciosas) também gostam de estampar pinups em suas garrafas. Vale lembrar que o comercial da Colorado para sua cerveja da Copa foi considerado machista e bastante criticado, não apenas por garotas, mas também por cervejeiros artesanais. Mas nada disso se compara ao machismo bruto das ações da Grande Indústria, que usa e abusa do corpo da mulher para vender cerveja.

Para nosso alívio, a maior parte dos rótulos das artesanais é neutra e não explora a sensualidade da mulher. Nem sugerem que elas permaneçam como espectadoras, serviçais ou estimuladoras. Alguns vão além e chegam a ser quase feministas, como a gaúcha Maria Degolada, feita em homenagem a uma mulher vítima de violência machista.

Mas a questão é: se a Grande Indústria toma como base seu público 75% masculino, as artesanais – que contam com maior público feminino – não deveriam ignorar seu 37% de apreciadoras, cifra que provavelmente cresce a cada ano. Uma boa maneira de atrair mais mulheres para suas cervejas é passar a respeitá-las como bebedoras de cerveja. Ah, e é bom lembrar também que já existem muitas mestras-cervejeiras no mercado e, como dissemos lá no início, fomos nós mulheres que inicial e secularmente fabricamos essa porra. Outra coisa a se considerar é que a Grande Indústria poderia focar em homens que não são idiotas e amam cervejas.

Ah! E se alguém vier comentar por aqui que nos falta humor garanto que nós somos muito bem humoradas e adoramos a companhia de mulheres e homens inteligentes.

Fonte: Lupulinas 
Carta Capital

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