MERCADOS
O grande problema implícito na organização social em que vivemos está no seguinte:
1) A história mostra que a utilização dos "mercados" para organizar a
produção é resultado de um mecanismo evolutivo. Foi gerado por uma
seleção quase natural dos muitos sistemas que os homens experimentaram
desde que saíram da África, há 150 mil anos, para combinar uma relativa
eficiência na produção de sua subsistência material com o aumento
paulatino da liberdade para viver sua vida;
2) Aprendemos o seguinte: a) que um Estado forte, constitucionalmente
limitado e cujo poder incumbente é escolhido pelo sufrágio universal, é
fundamental para regular e "civilizar" a organização dos mercados e
mantê-los funcionando; b) que, deixados a si mesmos, eles têm uma
tendência a impor flutuações cíclicas no nível de emprego; c) que a
crença exagerada na eficiência dos mercados financeiros, que são
essenciais ao desenvolvimento, leva o sistema produtivo à submissão
àqueles e, com tempo suficiente, ao domínio do próprio Estado, como
vimos em 1929 e em 2008, o que coloca em grave risco o seu
funcionamento.
O mecanismo de seleção a que nos referimos continua a trabalhar na
direção de libertar o homem para viver a sua humanidade, com redução do
trabalho necessário à sua subsistência material e dando-lhe a segurança
por meio de uma organização social que vai ensaiando como combinar três
objetivos não plenamente conciliáveis: maior liberdade individual, maior
igualdade de oportunidade e maior eficiência produtiva.
É importante lembrar que esses três valores estão implícitos na
Constituição de 1988. Ela reforçou as instituições, para que realizassem
a missão de construir uma organização social que produza maior
igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.
A história sugere também que o mecanismo do ingênuo "socialismo fabiano"
de aproximação sucessiva é, talvez, o único capaz de produzi-la, uma
vez que as alternativas propostas de substituição voluntarista e forçada
da orga-nização social sugerida por cérebros peregrinos provou ser
inviável.
O mundo está no limiar de uma nova e profunda revolução industrial,
apoiada em novas tecnologias e no aumento dramático da velocidade de
transmissão e acumulação de informação, que vai produzir uma redução do
trabalho material e um gigantesco aumento do trabalho intelectual.
Para o Brasil, que está ficando mais velho sem ter ficado mais rico, as
implicações de médio prazo desse processo civilizador precisam ser
antecipadas mediante um dramático e apressado aumento da "qualidade" da
nossa educação. Ela é essencial para salvar a economia e a democracia.
*Antonio Delfim Netto é ex-ministro da Fazenda (governos Costa e Silva e Médici), é economista e ex-deputado federal. Professor catedrático na Universidade de São Paulo. Escreve às quartas-feiras na versão impressa da Página A2.
Fonte: Folha de São Paulo


















































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