domingo, 18 de julho de 2010

POR CID AUGUSTO

 "VOLTA, CANINDÉ!"

Pintou nostalgia. Deve ser o “uisquito gringo”. A terceira dose, feito o conhaque de Drummond, deixa a gente “comovido como o diabo”. Ainda mais assim, sozinho, caneta e guardanapo sobre a mesa. De repente, entre rabisco e outro, que se imaginavam poesia, as letras mal-amanhadas formam um nome nada afeito ao lirismo: Canindé Queiroz, fundador da Gazeta do Oeste, polemista ferino, que marcou época no jornalismo “tupiniquim”, despertando sentimentos de amor e de ódio.


Brigou com muita gente, quase o mundo inteiro. E de peito aberto, sem se esconder na barra da saia do anonimato. Nem eu, menino velho, escapei. Acusou-me de algo engraçado: ser rosalbista. “Tem rosalbista editando o vetusto O Mossoroense”, dizia, irado, porque o jornal não se filiou à campanha dele contra Rosalba Ciarlini. Quando passei no vestibular para o curso de Comunicação Social da UFRN, telefonou-me lamentando o que considerou “rebaixamento de profissional a estudante”.


Fez escola com o famoso estilo arrasa-quarteirão, tanto que, embora não escreva há anos, ainda inspira profissionais e comunicadores leigos, inclusive e estranhamente umas vítimas de seus escritos, nos tempos áureos da coluna “Penso, Logo...”. Isto, Freud explica. Vem daí, na terra de Souza Machado, a incapacidade para se distinguir entre crítica e agressão, bem como a ideia de que jornalista bom é o sujeito escroto que bota para moer, escreve palavrões, desaforos, humilha e ridiculariza.


Na briga com Gustavo Rosado – vixe, parece que foi ontem! –, Canindé banhou de ouro um baú de injúrias, calúnias e difamações. Referências tão descabidas só voltaram a ser feitas ao hoje secretário do Gabinete da Prefeita, em processo judicial recente, quando advogados interrogavam falsários do vuco-vuco. A defesa de Gustavo contra a Gazeta do Oeste coube ao movimento artístico e, creiam-me os jovens, a este jornaleco que o Palácio da Resistência persegue com energia e entusiasmo.


A guerra contra o Colégio Sagrado Coração de Maria (Colégio das Irmãs), sem poupar as freiras, as mães de alunos nem o Papa João Paulo II, a quem desejou penetrações profundas em sete vias e com areia da praia, suscitou debates além das fronteiras do Rio Grande do Norte. E não havia Internet. Carlos Santos, editor da Gazeta, à época, impediu a publicação do texto em que o chefe utilizava cinquenta sinônimos de “homossexual” para designar respeitado sacerdote de nossa paróquia.


Não conseguiu evitar, no entanto, que certo jurista tivesse o lombo – como era mesmo a expressão? – “amaciado com porrete de jucá”. O homem não merecia, asseguro, mas apanhou até o colunista cansar o braço de tanto bater. Ah, voltou-se também contra colega nosso, de redação, estimulando-o a usar cangalha como fardamento de trabalho. Vários professores da Ufersa, além de empresários de dentro e de fora do “condomínio”, sentiram o peso das palavras com as tintas de CQ.


A campanha anti-Rosalba, mencionada no início deste arremedo de crônica, foi das mais cruéis, equiparando-se a episódio de há pouco, tendo por alvo a deputada federal Sandra Rosado. Em ambos os casos, as ofensas são intranscritíveis e atingiram níveis extremos. O contra-ataque da Rosa, pelas vias judiciais, arrasta-se por 15 anos, impondo severas indenizações à Gazeta, sem, contudo, desarticular a estrutura do jornal, que se mantém e cresce graças à competência de Maria Emília.


Esse relato comparado ao estilo dos neopolemistas dá uma saudade! Imagino até realizar a campanha “Volta, Canindé!”, lá no “tuíte”, como estímulo para que o mestre retorne às páginas da “urbe amada de todos nós”. CQ será idolatrado e o porrete de jucá convertido em bastião da democracia. Os únicos problemas, frente aos que se julgam seus discípulos, seriam os fatos de ele ser inteligente e ter coragem para assinar o que escreve. Mesmo assim, valeria a pela: “Volta, Canindé!”.

Fonte: Jornal O Mossoroense - Coluna Canto de Página

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