A CRISE DO FUTEBOL BRASILEIRO
Quando Getúlio Vargas idealizou a Copa de 50, a ideia era mostrar ao
mundo pós-guerra a força da nova potência mundial chamada Brasil. Não
deu certo. A seleção perdeu, o Brasil não era tudo aquilo que se achava,
e tudo continuou na mesma.
Em 2007, quando Lula idealizou a Copa
de 2014, a ideia era mostrar ao mundo em crise a força da nova potência
mundial chamada Brasil. Não deu certo. A seleção perdeu, o Brasil não
era tudo aquilo que se achava, e tudo continuou na mesma.
Esqueça
os 7 a 1. O futebol brasileiro está em crise desde 1950. Isso porque foi
mais ou menos nessa época que assumimos para nós mesmos que somos o
país do futebol. A pátria de chuteiras. E, como nunca conseguimos de
fato satisfazer essa expectativa, entramos em crise.
Os problemas
que são atribuídos ao futebol de hoje pouco variam dos problemas que
começaram a ser atribuídos a ele a partir da metade do século passado:
dificuldade em segurar jogadores no país, dificuldade de pagar salário,
dificuldade na manutenção dos estádios, dificuldade em conter a
violência, dificuldade, dificuldade, dificuldade.
A estabilidade
dessas dificuldades impressiona. Elas são tão estáveis ao longo do tempo
que talvez não devessem nem ser mais conhecidas como dificuldades, mas
sim como características.
Somos, por exemplo, um país que não vai
a jogos de futebol tanto assim. Nos grandes jogos, nos decisivos, claro
que vamos. Nesses todo mundo quer ir. Mas nos pequenos, onde a força da
relação do torcedor com o clube é realmente colocada à prova, nem
tanto. Assim como as dificuldades, a média de público do Campeonato
Brasileiro também é surpreendentemente estável. Desde o seu começo,
flertamos com as 15 mil pessoas por jogo. Às vezes um pouco mais, às
vezes um pouco menos. Mas sempre por aí. A média de 1967 a 2014? 14.937.
A média nos últimos 10 anos? 15.259. A média em 2015 até o momento?
14.762.
Isso em si já derruba muitos dos argumentos da decadência
do futebol brasileiro, tão alardeados após o 7 a1. Afinal, se os
estádios não eram mais cheios antigamente, isso quer dizer que os
estádios vazios não são um sinal de crise. Se em quase 50 anos a média é
de 15 mil pessoas, porque acreditar que todo estádio novo tem que ser
para 45 mil pessoas? E o que leva a acreditar que um estádio com
capacidade 3 vezes maior que a demanda histórica se paga? Obviamente, os
estádios estão vazios e abandonados. Mas isso não é crise. É viver uma
ilusão irracional. Um sonho inalcançável.
Estádios vazios reduzem
a demanda e geram maiores custos de manutenção, reduzindo
significativamente a capacidade dos proprietários em manter outros
compromissos. E ainda que as receitas dos clubes tenha crescido
significativamente nas últimas décadas, elas não conseguem acompanhar a
bola de neve de pendências financeiras acumuladas desde o dia em que
alguém nos cunhou com o terrível fardo de acharmos que somos o país do
futebol. Gastamos mais do que podemos porque achamos que podemos muito.
Assim, os estádios ficam às moscas, os salários dos jogadores – com
valores tão irreais quanto a capacidade das arenas – invariavelmente
atrasam e o número de processos trabalhistas inevitavelmente cresce. A
bola de neve só aumenta.
A solução para desenvolver o futebol
brasileiro não é simples. Nem rápida. Mas existe. Passa pela necessidade
de um choque coletivo de realidade que se propague pelo governo,
clubes, federações, associações e atletas. Todos necessitam compreender o
seu verdadeiro posicionamento dentro da indústria e o papel que
precisam desempenhar para que o futebol brasileiro se torne, pela
primeira vez, uma operação minimamente viável e possa crescer ao invés
de ficar parado no tempo.
Enquanto não aceitarmos que o que
vivemos não é uma fase ruim, mas sim que o nosso futebol é um mercado de
somente 15 mil pessoas por jogo e não essa ilusão megalomaníaca que um
dia inventamos, ou inventaram, para nós mesmos, jamais sairemos do
lugar. Continuaremos a acreditar que estamos passando por uma
surpreendentemente estável crise, mas que no fundo é apenas a nossa
verdadeira pequena e limitada realidade.
*Oliver Seitz é
PhD em Indústria do Futebol pela Universidade de Liverpool e Professor
da University College of Football Business de Londres.
Fonte: UOL Esporte

















































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