O BEBÊ VOADOR
Definir o que é e o que não é jornalismo é sempre uma questão de visão que nunca vai deixar de ser alvo de debate. O que interessa ou não depende do leitor, hoje, muito mais diversificado.
No início dos anos 90, quando Albimar Furtado assumiu a superintendência do Diário de Natal/O Poti, eu era correspondente do jornal em Mossoró e, ao mesmo tempo, editor de O Mossoroense. O saudoso jornalista Nilo Santos era correspondente da Tribuna do Norte. Travávamos uma concorrência sadia, cada qual fazendo a sua linha.
Numa manhã, quando ouvia rádio, passei pelo noticiário da Difusora e o assunto em pauta focava sobre uma mulher que havia dado à luz a um bebê, que saiu voando. Era ali pras bandas dos bairros Lagoa do Mato e Carnaubal. A maior onda.
Não contei conversa, tasquei o telefone para João Neto e comentei sobre a pauta com entusiasmo, embora eu mesmo tenha achado a coisa meio estranha. Mas estava pronto para apurar e produzir a matéria.
- João Neto – falei assim, meio com receio.
- Rapaz, aqui em Mossoró uma mulher deu à luz e o menino saiu voando...
Ele fez um silêncio como se não estivesse ouvindo bem.
- Como é, Gilberto?
- Uma mulher deu à luz, e o menino saiu voando – repeti compassado.
- Ôô Gilberto, que é isso homem? Não, não, não... Condenou enquanto eu ainda tentava acrescentar explicações sem sucesso.
- Mando não?
- Claro que não – encerrou.
Desliguei e fui elaborar outras pautas do cotidiano. Mesmo assim, decidi levantar a matéria para o jornal O Mossoroense. Conversei com a mulher, familiares e vizinhos, que confirmaram a gravidez, mas ninguém na verdade tinha visto o bebê voador. Fechei o material entrevistando dr. Barreto, ginecologista, que sem se aprofundar no assunto apontou a possibilidade de uma gravidez psicológica e por aí foi.
No dia seguinte, quando abri a Tribuna, estava lá na página regional com chamada em capa, um amplo material, redondinho, cheio de retrancas, fotos e um texto impecável de Nilo Santos com um leve sabor de sensacionalismo. Boa repercussão, por sinal.
Ainda pela manhã João Neto me liga.
- Gilberto, faça lá a tal matéria do menino que saiu voando. Dê outro enfoque e faça aí – disse ainda mesmo que recusando.
* Gilberto de Sousa é jornalista, músico, blogueiro, boêmio e escritor.
Fonte: Caderno mil
NOTA DO BLOG:
Meu caro e dileto amigo Gilberto de Sousa, fiquei feliz com o seu retorno a blogosfera.
Espero que esse retorno seja definitivo.
Um forte abraço.

















































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