MARX, O DIABO E A CRISE DO
CAPITALISMO
Karl Marx acordou aborrecido. O inferno estava quentíssimo e Lúcifer teimava em acordá-lo para contar as novidades do mundo dos homens. Marx já não se interessava muito por esse mundo e não podia conter a indignação quando lembrava as atrocidades que foram feitas em nome do socialismo. Graças ao diabo, vivia no primeiro círculo do inferno, e não precisava dividir as chamas com genocidas como Stalin, Ceausescu e Pol Pot, que mataram milhões de pessoas em seu nome, e habitavam os círculos mais profundos da casa de Hades.
Após tantos contratempos, ainda acreditava no fim do capitalismo, mas tantas vezes ouviu seus seguidores anunciarem equivocadamente a dêblacle final do sistema que o ceticismo dominou seu espírito. O capitalismo era uma espécie de Fênix que ressurgia das próprias cinzas, e cada crise que parecia trombetear seu extermínio terminava por fortalecê-lo. Já não se entusiasmava com os espasmos cíclicos do sistema e, a essa altura, preferia arder em paz no inferno do que sair por aí anunciando a crise definitiva que nunca chegava. Por isso, aborreceu-se com a insistência com que o diabo o chamava, mas como não podia mandá-lo para o inferno, afinal ele já estava lá, resolveu ver o que desejava o famigerado Senhor das Trevas. Ao vê-lo com as narinas fumegantes, indagou:
– O que você quer Belzebu?
– Marx, suas previsões estão se confirmando. O capitalismo está ruindo.
– Já não creio nessa lorota. – retrucou Marx, sarcástico. – É apenas mais uma crise cíclica.
– Mas o que está acontecendo é grave. Começou com uma crise imobiliária, mas contaminou o sistema bancário e agora ameaça a economia real. O que houve com o capitalismo, Marx?
– É o velho ciclo de auge e depressão. O mundo passou por um período longo de crescimento e o superaquecimento da economia dos EUA, que representa quase 30% da economia do planeta, além do convívio prolongado com baixas taxas de juros, gerou uma exuberância irracional no sistema. Havia excessiva liquidez no mercado e isso estimulou o endividamento. Houve uma expansão exagerada do mercado imobiliário americano, pois havia tanto dinheiro sobrando que os bancos passaram a financiar credores sem capacidade de pagamento, clientes que não eram prime, mas subprime. As dividas desses clientes foram securitizadas, e essa garantia permitia que esses títulos fossem negociados no mundo inteiro. As empresas começaram a fazer seguros com as hipotecas desses clientes duvidosos e assim os riscos foram terciarizados, de forma que os bancos não precisavam se preocupar com a qualidade dos clientes a quem estavam emprestando. Os títulos foram negociados nos EUA e no resto do mundo, fazendo o risco espalhar-se no mercado. Deu-se a coisa mais típica do capitalismo moderno: alavancagem financeira com títulos podres.
- Ora, ora, Marx, eu sou apenas um diabo, não entendo esse economês todo. O que eu quero saber é se o capitalismo vai acabar.
- Lúcifer, meu amigo, desde que meu vizinho de inferno, esse empedernido Lord Keynes, fez uma teoria dizendo que o Estado podia intervir na economia, o capitalismo deixou de correr perigo. Esse maldito inglês propôs que o Estado usasse todos os instrumentos disponíveis para resolver as crises do capitalismo. Esse Keynes dizia que os gastos do governo eram o antídoto para a recessão, e que, na crise, era necessário o governo consumir e investir para dinamizar a economia. Pois bem, quando aquele presidente americano imbecil, o Bush, e seus asseclas neoliberais deixaram o banco Lemon Brothers quebrar, ele pretendiam contradizer Keynes e dizer ao mundo que quem mandava no sistema era o mercado. Quebraram a cara. O mercado desabou, os bancos começaram a quebrar, um atrás do outro, e eles tiveram de colocar o rabinho entre as pernas e aceitar as propostas do Banco Central e do governo da Inglaterra e estatizar parcialmente os bancos, injetando bilhões de dólares na economia para evitar a quebradeira geral e outros tantos para garantir o crédito.
- E de onde veio esse dinheiro todo?
- Dos contribuintes, meu bravo capeta. Foi com o dinheiro deles que se evitou que o capitalismo quebrasse. Os governos injetaram bilhões diretamente e em forma de crédito na economia e estatizaram os bancos, mas essa estatização é mentirosa , quando a coisa acalmar tudo voltará às mãos do setor privado. Em poucas palavras: eles socializaram os prejuízos causados pela especulação financeira e pela ganância dos especuladores. O mais incrível é que a sociedade não só permitiu que o governo fizesse isso como aplaudiu a incitativa. Foi o contribuinte que bancou a farra das hipotecas e dos banqueiros. No fundo, é Keynes novamente: o Estado salvando o capitalismo e os capitalistas.
- Não é à toa que esse Lord Keynes está no inferno.
- O pior é que ele desvirtuou o próprio capitalismo. Você não percebe a ironia, Belzebu. O capitalismo, cuja essência é a liberdade econômica e a privatização, valeu-se da estatização do sistema para evitar a crise. Isso já não é mais capitalismo, é um hibrido, uma Hidra de Lerna que perde uma cabeça para ver crescer duas em seu lugar.
- Mas, Marx, se os governos não fizessem isso haveria uma corrida aos bancos? O sistema financeiro internacional quebraria e o capitalismo iria ruir.
- E era exatamente isso que eu queria. Mas hoje eu sei que será impossível. O capitalismo é um monstro camaleônico, que toma a forma do bicho que deseja destruí-lo. Sabe, Lúcifer, eu fiquei impressionado quando vi a face de Che Guevara estampada no biquíni daquela linda brasileira, Gisele Bundchen, acho que é esse o nome dela. Ora, a foto de Guevarra, que queria exportar o socialismo, tornou-se o souvenir mais vendido no mundo. Percebi então que é essa a mágica do capitalismo, ele é flexível, camaleônico, se não pode destruir um símbolo, apropria-se dele e o transforma em mercadoria. E quando vem uma crise como essa agora, o poderoso mercado também flexibiliza, baixa cabeça e, para não sucumbir, submete-se ao Estado. O sistema deixa-se estatizar momentaneamente para logo depois tudo voltar ao que era antes.
- O que você que dizer com isso, Marx?
- Que o capitalismo não vai acabar tão cedo, meu Príncipe das Trevas. Ele é uma hidra de muitas cabeças. A crise pode cortar algumas delas, mas logo nascerão outras e, mesmo que algumas coisas mudem, tudo continuará como está.
Após tantos contratempos, ainda acreditava no fim do capitalismo, mas tantas vezes ouviu seus seguidores anunciarem equivocadamente a dêblacle final do sistema que o ceticismo dominou seu espírito. O capitalismo era uma espécie de Fênix que ressurgia das próprias cinzas, e cada crise que parecia trombetear seu extermínio terminava por fortalecê-lo. Já não se entusiasmava com os espasmos cíclicos do sistema e, a essa altura, preferia arder em paz no inferno do que sair por aí anunciando a crise definitiva que nunca chegava. Por isso, aborreceu-se com a insistência com que o diabo o chamava, mas como não podia mandá-lo para o inferno, afinal ele já estava lá, resolveu ver o que desejava o famigerado Senhor das Trevas. Ao vê-lo com as narinas fumegantes, indagou:
– O que você quer Belzebu?
– Marx, suas previsões estão se confirmando. O capitalismo está ruindo.
– Já não creio nessa lorota. – retrucou Marx, sarcástico. – É apenas mais uma crise cíclica.
– Mas o que está acontecendo é grave. Começou com uma crise imobiliária, mas contaminou o sistema bancário e agora ameaça a economia real. O que houve com o capitalismo, Marx?
– É o velho ciclo de auge e depressão. O mundo passou por um período longo de crescimento e o superaquecimento da economia dos EUA, que representa quase 30% da economia do planeta, além do convívio prolongado com baixas taxas de juros, gerou uma exuberância irracional no sistema. Havia excessiva liquidez no mercado e isso estimulou o endividamento. Houve uma expansão exagerada do mercado imobiliário americano, pois havia tanto dinheiro sobrando que os bancos passaram a financiar credores sem capacidade de pagamento, clientes que não eram prime, mas subprime. As dividas desses clientes foram securitizadas, e essa garantia permitia que esses títulos fossem negociados no mundo inteiro. As empresas começaram a fazer seguros com as hipotecas desses clientes duvidosos e assim os riscos foram terciarizados, de forma que os bancos não precisavam se preocupar com a qualidade dos clientes a quem estavam emprestando. Os títulos foram negociados nos EUA e no resto do mundo, fazendo o risco espalhar-se no mercado. Deu-se a coisa mais típica do capitalismo moderno: alavancagem financeira com títulos podres.
- Ora, ora, Marx, eu sou apenas um diabo, não entendo esse economês todo. O que eu quero saber é se o capitalismo vai acabar.
- Lúcifer, meu amigo, desde que meu vizinho de inferno, esse empedernido Lord Keynes, fez uma teoria dizendo que o Estado podia intervir na economia, o capitalismo deixou de correr perigo. Esse maldito inglês propôs que o Estado usasse todos os instrumentos disponíveis para resolver as crises do capitalismo. Esse Keynes dizia que os gastos do governo eram o antídoto para a recessão, e que, na crise, era necessário o governo consumir e investir para dinamizar a economia. Pois bem, quando aquele presidente americano imbecil, o Bush, e seus asseclas neoliberais deixaram o banco Lemon Brothers quebrar, ele pretendiam contradizer Keynes e dizer ao mundo que quem mandava no sistema era o mercado. Quebraram a cara. O mercado desabou, os bancos começaram a quebrar, um atrás do outro, e eles tiveram de colocar o rabinho entre as pernas e aceitar as propostas do Banco Central e do governo da Inglaterra e estatizar parcialmente os bancos, injetando bilhões de dólares na economia para evitar a quebradeira geral e outros tantos para garantir o crédito.
- E de onde veio esse dinheiro todo?
- Dos contribuintes, meu bravo capeta. Foi com o dinheiro deles que se evitou que o capitalismo quebrasse. Os governos injetaram bilhões diretamente e em forma de crédito na economia e estatizaram os bancos, mas essa estatização é mentirosa , quando a coisa acalmar tudo voltará às mãos do setor privado. Em poucas palavras: eles socializaram os prejuízos causados pela especulação financeira e pela ganância dos especuladores. O mais incrível é que a sociedade não só permitiu que o governo fizesse isso como aplaudiu a incitativa. Foi o contribuinte que bancou a farra das hipotecas e dos banqueiros. No fundo, é Keynes novamente: o Estado salvando o capitalismo e os capitalistas.
- Não é à toa que esse Lord Keynes está no inferno.
- O pior é que ele desvirtuou o próprio capitalismo. Você não percebe a ironia, Belzebu. O capitalismo, cuja essência é a liberdade econômica e a privatização, valeu-se da estatização do sistema para evitar a crise. Isso já não é mais capitalismo, é um hibrido, uma Hidra de Lerna que perde uma cabeça para ver crescer duas em seu lugar.
- Mas, Marx, se os governos não fizessem isso haveria uma corrida aos bancos? O sistema financeiro internacional quebraria e o capitalismo iria ruir.
- E era exatamente isso que eu queria. Mas hoje eu sei que será impossível. O capitalismo é um monstro camaleônico, que toma a forma do bicho que deseja destruí-lo. Sabe, Lúcifer, eu fiquei impressionado quando vi a face de Che Guevara estampada no biquíni daquela linda brasileira, Gisele Bundchen, acho que é esse o nome dela. Ora, a foto de Guevarra, que queria exportar o socialismo, tornou-se o souvenir mais vendido no mundo. Percebi então que é essa a mágica do capitalismo, ele é flexível, camaleônico, se não pode destruir um símbolo, apropria-se dele e o transforma em mercadoria. E quando vem uma crise como essa agora, o poderoso mercado também flexibiliza, baixa cabeça e, para não sucumbir, submete-se ao Estado. O sistema deixa-se estatizar momentaneamente para logo depois tudo voltar ao que era antes.
- O que você que dizer com isso, Marx?
- Que o capitalismo não vai acabar tão cedo, meu Príncipe das Trevas. Ele é uma hidra de muitas cabeças. A crise pode cortar algumas delas, mas logo nascerão outras e, mesmo que algumas coisas mudem, tudo continuará como está.
* Economista, jornalísta e escritor. Armando Avena é prof. da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Católica de Salvador.

















































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