LAMARCA, O CAPITÃO DA GUERRILHA
Carlos Lamarca destacou-se quando cadete do exército devido pontaria impecável. Era um exímio atirador, fato que o transformou em orgulho das forças armadas brasileiras a ponto de galgar altos degraus da oficialidade em pouco tempo, chegando a Capitão.
Quando as forças de paz da Organização das Nações Unidas foram enviadas para o oriente médio, em razão da aguda crise entre árabes e judeus na década de cinqüenta, Lamarca foi incorporado ao contingente brasileiro enviado a Suez.
Lamarca revelou em carta a Maria Pavan, sua esposa, que caso tivesse de entrar em confronto ficaria ao lado dos árabes, pois notara a situação de extrema penúria em que se encontram ainda os descendentes de Ismael.
Certa vez, em solo brasileiro, despertou a atenção quando protagonizou tremenda bebedeira devido à execução de Guevara na Bolívia, em outubro de 1967. O serviço de inteligência das forças armadas alertou a alta oficialidade que Lamarca possuía inclinações comunistas. Os militares desdenharam os relatórios, afirmando que o jovem oficial era como se fosse um filho. Atirador de raros dotes, Lamarca fascinava os oficiais com a pontaria mais que certeira. Era um artista, exímio atirador, nunca errava o alvo.
Para testar Lamarca, oficiais graduados convocaram-no para treinar empregados do Banco Bradesco, para saberem como reagir a um assalto que por ventura fosse levado avante por militantes da esquerda armada radical que proliferava quando dos anos de chumbo instituídos pela Ditadura Militar. As fotos de Lamarca treinando o grupo subordinado à empresa bancária foram divulgadas com pompas em revistas de circulação nacional.
O comando do quartel no qual servia, em Osasco, desafiou a militância da Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares a praticar qualquer ato de terrorismo contra a unidade militar.
Os militantes aceitaram o desafio e jogaram um carro-bomba em direção ao quartel, matando incauto soldado de nome Mário Kozel Filho. Havia cartaz afixado ao carro que conduzia os explosivos avisando que era um atentado, uma resposta à arrogância dos militares que desafiaram àqueles corajosos jovens que pegaram em armas para lutar contra a Ditadura Militar.
Lamarca, que já tinha profundas inclinações esquerdistas, notou que o pessoal da VAR-Palmares não era de brincadeira. Entrou em contato com o comando guerrilheiro e ficou decidido sobre a deserção do oficial do exército brasileiro a fim de fomentar a guerrilha que a esquerda revolucionária levava avante no Brasil, lutando contra a ditadura militar.
Imprevisto aconteceu quando o carro que deveria carregar o armamento pesado que o Capitão Lamarca pretendia expropriar do quartel no qual servia, quando estivesse como oficial do dia.
Nas imediações da serra da Cantareira militantes da VAR-Palmares tiveram pequeno desentendimento com moradores locais, os quais logo acionaram a polícia. Lamarca ficou sabendo do incidente e resolveu desertar com alguns militares que aderiram à causa da esquerda armada, levando em uma Kombi de propriedade do até então louvado oficial do exército brasileiro cerca de 69 FAL’s e outros armamentos privativos das Forças Armadas Brasileiras.
O alto comando militar que tinha em Lamarca símbolo de orgulho não acreditou quando a verdade veio à tona, ou seja, que realmente àquele oficial era comunista. De orgulho das forças armadas nacionais a persona non grata foram milímetros de segundo.
Como a célula revolucionária da qual passou a fazer parte não possuía perfeito esquema de segurança para garantir a posse das armas expropriadas, Lamarca resolveu confiar ao grupo comandado pelo ex-deputado Carlos Marighella, líder da ALNB, a guarda do arsenal bélico. Depois Marighella se negou a entregar as armas, o que causou profunda revolta no ex-militar, quase resultando em atrito entre o grupo que integrava e o que Marighella comandava.
Verdadeira caçada foi promovida ao capitão Lamarca e seu grupo guerrilheiro. O vale do Ribeira, região paupérrima localizada quase na fronteira de São Paulo com o Estado do Paraná foi o local escolhido para instalar o foco de guerrilha rural, seguindo os ensinamentos de Mao-Tsé-Tung e outros líderes do movimento comunista internacional.
A região foi cercada pelo aparelho repressivo do Estado, mas os guerrilheiros conseguiram romper o cerco. Lamarca e seu grupo passaram a concentrar as ações na zona urbana de cidades importantes, sendo responsáveis pelo primeiro assalto a banco desde que a Ditadura Militar havia sido instituída no Brasil.
O alvo foi o banco Itaú. Lamarca, devido ser exímio atirador, ficou com a missão de proteger os militantes da VAR-Palmares de qualquer eventualidade. A ação dos militantes guerrilheiros despertou a atenção de um militar que se encontrava nas proximidades. Quando o soldado tentou interceptar os guerrilheiros, Lamarca, postado a trinta metros de distância, disparou certeiro tiro de pistola calibre 45 na nuca do homem que buscava cumprir seu dever. Quando o impacto da bala fê-lo rodopiar na direção em que se encontrava o ex-capitão do exército Brasileiro, certeiro tiro atingiu-lhe na testa. O alto comando militar não teve dúvidas quando viu o resultado da ação guerrilheira. Era Lamarca o autor dos disparos certeiros.
O ex-capitão tornou-se um dos homens mais perseguidos do Brasil, talvez o mais perseguido, pois o esquema montado pela repressão para liquidá-lo foi algo inacreditável. Era questão de honra buscá-lo e liquidá-lo a qualquer custo, pois, conforme o imaginário militar, as forças armadas brasileiras haviam sido desmoralizadas devido a deserção do “menino de ouro” do exército Brasileiro.
Seguindo os passos da ALN, de Marighella e Joaquim Câmara ferreira, e do MR-8, de Gabeira, Lamarca foi responsável pelo seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Buchi, trocado por presos políticos que foram enviados para o exterior.
Desentendido com a direção da VAR-Palmares, Lamarca ingressou no MR-8 e juntou-se à guerrilheira Iara Yavelberg, psicóloga e ex-professora da USP. Buscaram os sertões ermos e distantes a fim de levar avante a luta pela libertação do povo brasileiro, concentrando o foco de atuação do grupo guerrilheiro na Bahia.
Iara foi morta no bairro da Pituba, em salvador, enquanto Lamarca tomava o rumo da Chapada da Diamantina para fugir da repressão feroz que moviam principalmente contra ele. Fleury, famigerado delegado que coordenava a repressão contra os guerrilheiros das diversas células contestatórias ao regime militar, embrenhou-se nos sertões baianos carregando consigo uma bandeira do Brasil.
A “honra” de matar Lamarca e seu companheiro Zequinha Campos Barreto, em setembro de 1971, coube ao então Coronel Newton de Albuquerque Cerqueira. Magros, famintos, sedentos e desesperados, traídos pelo povo que pretendiam libertar da opressão secular que se reproduz afrontosamente ainda nos dias de hoje, Lamarca e seu companheiro tornaram-se alvos fáceis das rajadas disparadas pelo oficial e um subordinado que também participava da caça aos guerrilheiros, ex-capitão do Exército Brasileiro.
Lamarca e seu companheiro foram mortos na região de Brotas de Macaúbas, próximo ao local onde Corisco, o “Diabo Louro”, enfrentou a volante de Zé Rufino na última batalha, tendo tombado praticamente indefeso, ao lado da companheira Dadá, que sobreviveu, mas perdeu a perna.
Era o fim de um mito da esquerda armada que lutou com estoicismo pelos ideais nos quais acreditava e que virou símbolo de uma época quanto a contestação aos anos de chumbo da ditadura militar que usava o famigerado AI-5 como forma de oprimir ainda mais qualquer reivindicação que fosse contrária aos interesses da ditadura militar e dos donos do poder.
(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.
















































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