ADAM SMITH, A "MÃO INVISÍVEL" E A CRISE DE 1929
Smith é considerado o pai da teoria liberal clássica, em cuja elaboração de suas teses está o pressuposto mais acalentado pela classe dominante capitalista, o qual diz respeito a não intervenção do estado na economia, a doutrina condensada na máxima laissez faire, laissez passer, ou seja, deixar fazer, deixar passar, sem empecilhos que possam impedir o livre curso da maximização de lucros com minimização de custos.
Os teóricos ortodoxos que saudaram com pompas as teses de Smith sobre a economia do modo de produção capitalista aceitaram em caráter metafísico a tese de que o Estado não deveria jamais intervir na produção de bens e serviços em razão que, conforme Smith, a economia se auto-regularia através de uma “mão invisível” que evitaria qualquer colapso que por ventura ameaçasse o livre curso da economia liberal capitalista.
O término do primeiro conflito mundial em novembro de 1918 deixou a Europa arrasada. A divisão internacional do trabalho seguia o modelo clássico patenteado quando do pacto colonial, ou seja, com as antigas colônias produzindo matérias-primas e as metrópoles consumindo-as e se dedicando ao processo de transformação que alicerça o setor secundário.
A negociação de commodities era feita na Bolsa de valores de Nova York. Necessitando se reconstruir, a Europa voltou-se de corpo e alma para a compra de matérias-primas. O “boom econômico” da periferia foi registrado de forma enfática, pois todo bem primário produzido era imediatamente adquirido através da complexa negociação feita na bolsa de valores Novayorquina.
Inúmeras empresas, com ênfase às dedicadas ao ramo de exportação e importação tiveram do dia para a noite suas ações valorizadas de forma estratosférica. Dessa forma, criou-se espiral especulativa em que a essência da economia deixou de existir, ou seja, paralisaram-se atividades importantes da produção por que era mais lucrativo investir no mercado de ações do que dinamizar a relação capital-trabalho-consumo. Empresários dispensaram trabalhadores para engrossar a espiral especulativa. Operários se transformaram em investidores do mercado de ações, assim o mundo capitalista foi se transformando em uma imensa bola de neve de especulação.
Alguns lúcidos economistas começaram a enxergar uma imensa catástrofe econômico-financeira a ser deflagrada a qualquer momento, pois notaram que a Europa já estava quase que totalmente reconstruída. Os defensores da teoria liberal clássica defendida por Adam Smith riram da falta de “espírito capitalista” daqueles que se preocupavam com os futuros rumos que poderiam ser causados pela desconectividade entre oferta e demanda devido a possível ausência de necessidades imediatas daqueles que buscavam a Bolsa de Valores de Nova York para adquiri bens primários indispensáveis à reconstrução européia.
Setembro de 1929, uma quinta-feira negra que marcou profundamente a história da humanidade, simboliza o drama capitalista e a falha da teoria Smithiana no que tange á pregação de que uma “mão invisível regularia naturalmente oferta e demanda.
Não apareceram compradores, as ações antes hiper-valorizadas começaram a cair vertiginosamente. A incerteza tomou conta do mundo capitalista.
Trotsky, defensor da revolução permanente, pregou que àquela era a hora exata para deflagrar a tomada do poder a nível mundial. Stálin não aceitou, expulsou o líder do exército vermelho da União Soviética e desprezou o mais importante momento para a consolidação do socialismo no planeta.
Investidores, empresários, produtores, entre inúmeros outros agentes econômicos, entraram em pânico com a situação. Os suicídios eram constantes. Ascensoristas dos Hotéis Novayorquinos, com ar de deboche, perguntavam às pessoas que se hospedavam se iam dormir ou pular. Cafeicultores brasileiros eram encontrados com tiros na cabeça agarrados aos pés da rubiácea. O mundo tornou-se uma celeuma só, todos, de uma forma ou de outra, foram prejudicados pelo crack da Bolsa de Valores de Nova York.
Franklin Delano Roosevelt, que mais tarde enfrentaria outra prova de fogo quando do ataque-surpresa japonês á base naval de Pearl Harbor, no Hawaí, definindo a entrada norte-americana na segunda grande guerra, convocou em regime de urgência e Jonhn Maynard Keynes, responsável por redefinição teórica para a economia capitalista. Pregou, ao contrário de Smnith, a necessidade do Estado intervir na economia para sanar crises gravíssimas como a enfrentada naqueles tempos. A Tenesse Valley, autarquia federal criada para contornar a dramática situação sócio-econômica da mais castigada região devido à crise de 1929 inspirou posteriormente a criação da SUDENE no Brasil, bem como a cassa per Il mezzogiorno, na Itália, destinada a buscar sanar os desníveis verificados entre o norte rico e industrializados e o sul atrasado e empobrecido historicamente.
Antes do término da segunda guerra mundial, os Estados Unidos convocaram reunião extraordinária, realizada em 1944, em Bretton Woods, subúrbio de Washington, intuindo redefinir a nova ordem econômica mundial, cujos pontos principais foram acertados, mas com grande protesto Britânico. Ficou definido que empresas sediadas no primeiro mundo migrariam para espaços selecionados do terceiro mundo, visando evitar outro colapso de grandes proporções como o verificado em 1929. Outro ponto importante foi a mudança do padrão-ouro, que até então lastreava a hegemonia econômica, pelo padrão-dólar, cuja maior prejudicada foi a Inglaterra. Os protestos ingleses foram abafados quando os norte-americanos mataram dois coelhos com uma cajadada só, pois ao explodirem a bomba atômica em Hiroxima, depois em Nagasaky, no mês de agosto de 1945, vingavam definitivamente o ataque a Pearl Harbor e aproveitavam para deixar bem claro quem de fato mandava no mundo capitalista a partir de então.
Em 1948, economista austríaco de nome Hayek, ressucitou a teoria Smithiana formulando os princípios do neo-liberalismo, condição sine qua non para que a migração das multinacionais em direção a espaços selecionados do terceiro mundo obtivesse sucesso, pois algumas experiências nacional-populistas efetivadas em alguns países periféricos ameaçavam os interesses catalisados pelo ideário que passou a nortear poderosas corporações empresariais primeiro-mundistas que apostavam importantes cartas nos princípios de uma nova ordem econômica mundial que redefiniu alicerces de uma outra divisão internacional do trabalho que se difere da que era vigente até a segunda grande guerra mundial.
(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contato: romero.cardoso@gmail.com

















































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