A ENERGIA EÓLICA E A
DESIGUALDADE AJUSTADA
Avança a energia eólica no Rio Grande do Norte, novidade quase indiscutível. Isto significa, dentre outras coisas, que o capital intensifica seus ajustes espaciais e criação de fundos de ativos. Encontrou no Polo Costa Branca do RN as condições propícias. Significa, também, o avanço de uma energia renovável e cara, que requer maiores reinvestimentos de capital, geração de mercados complementares de energia, mudanças territoriais e superação de entraves jurídicos. As consequências sociais, ainda pouco explicadas para o RN, envolvem a discussão do intensivo capital que requerem os parques eólicos para a produção de energia, e os acordos, nem sempre claros, entre comunidade e empresa.
Energia eólica no RN implica em trabalho
especializado, mas sazonal e orientado pela implantação ou manutenção do
“sistema”. É uma produção energética que implica em terras baratas e fáceis de
manter. Intervenções no meio-ambiente, ativo social produtivo apenas quando
associado à qualidade dos ventos que movem as gigantescas hélices e mudam a
paisagem de parte do litoral potiguar.
Ao se discutir
as novas formas complexas de energia é preciso questionar os efeitos de desigualdade
territorial que podem vir a realizar, traduzidas, em muitos casos, pela “despossessão”
e “mercanditização”, e camufladas pelas práticas de responsabilidade social
(irresponsabilidade ambiental, corporativa). No Polo Costa Branca do RN estes
efeitos parecem atingir às famílias residentes na faixa litorânea. Sabemos que
conflitos entre grupos e classes sociais, entre capitais, a segregação entre
espaços urbanos, a influência na alteração das leis urbanísticas e do
meio-ambiente, a geração continuada da pobreza e exclusão social, não são problemas
resolvidos com práticas de responsabilidades social realizadas por empresas.
Empresas são responsáveis apenas com a interminável acumulação de capital que
precisam fazer. Nisto elas são precisas. Esses efeitos no “social” são os da
despossessão e mercanditização. Empresa também são precisas nisso.
Os efeitos desse “capital alísio” preocupam,
especialmente por avançar embandeirado pela ideologia do localismo e vocação
regional e territorial do estado. Estamos diante da energia renovável que mais
cresce no mundo, e seu surto exige mais ajustes espaciais, mais e diversos fundos
de ativos integrados á sua cadeia energética mais complexa e dinamizadora de
outras estruturas produtiva.
Tipos de capitais tão velozes e poderosos
como são os que realizam a energia eólica no RN constrói redes de privilégios e
prejuízos coletivos, e nos atravessam por novas e velhas redes de desigualdades.
A dominação sutil que sua produção exige, redistribui desigual e circunstancialmente
ativos sociais públicos, como o acesso a terra e serviços, sob a defesa de um mercado
restrito e impopular da produção e consumo de energia renovável. Todas as redes
de desigualdade possuem bases materiais ou simbólicas, e a historia da falta de
controle público sobre a energia renovável aqui e no mundo contribuem para o
fortalecimento da separação de grupos e classes, e uma estratificação social
muita mais complexa e difícil de explica do que as existentes no sec. XIX. A
fábrica da energia, o estado regulador da energia e a sociedade que a consome estavam,
em grande medida, assentados em outras demandas sociais e políticas, bem
diferentes em intensidade e capacidade de realizar consenso e, assim, amenizar
as desigualdades produzidas pelas estruturas produtivas.
Vivemos intensamente um processo de
classificação, ordenamento, hierarquização e produção de privilégios produzidos
por um sistema de vantagens e desvantagens sociais, coletivas e,
principalmente, privadas. O grande equívoco entre muitos cientistas sociais e
os homens das ciências duras é deificar a produção de energia renovável como
energia limpa e esquecer a desigualdade social, fortalecida pela despossessão e
mercanditização do território, que ela promove. Todas as formas de desigualdades
históricas, seja para uma marxista revisionista ou weberianos apaixonados, são
reconhecidamente o produto nefasto do poder e da dominação. Mas a grande e
histórica questão sobre ela é saber, ainda, que sujeitos estão no centro de sua
produção e generalização, especialmente num mundo social mais consumidor de
energia. É nesse sentido que a empresa, o estado e a sociedade civil
encontram-se no cerne das discussões sobre os destinos sociais da energia, e da
“generalização desigual da desigualdade”. Como nos lembra um contratualista
como Rousseau e um humanista como Marx, a desigualdade assume formas sofisticadas
e são sustentadas por estruturas
políticas e econômicas reproduzidas por sistemas hegemônicos corporativos ou
interestatais. É nesse sentido que as estruturas produtivas de energia, nas
suas várias formas generalizadas são as expressões mais precisas da
desigualdade generalizada.
Lembro aos leitores os alertas de David
Harvey (2004), e enfatizo que este movimento do capital no Rio Grande do Norte
exige muito mais imagens recriadas de si mesmo do que no passado.
Referências
Bibliográficas
HARVEY, David. O Novo Imperialismo.
São Paulo: Edições Loyola, 2004.
*Ângelo Magalhães é Sociólogo, Doutor em Coências Sociais e Professor se Sociologia da UFERSA.
*Ângelo Magalhães é Sociólogo, Doutor em Coências Sociais e Professor se Sociologia da UFERSA.

















































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