TANTA FALTA DE ÉTICA...
As mil e uma tarefas as quais estou submetida no dia a dia, de mãe, mulher, profissional... me obrigam a ser extremamente objetiva. Entretanto, às vezes surgem fatos que mais parecem ficção, que nos espantam e inquietam tanto que a única alternativa é parar tudo um pouco e escrever para desabafar, registrar e, talvez, compartilhar todo o meu espanto e inquietação com outros. Assim tem sido com o famigerado caso “Paulo Doido”. Essa história me espanta enquanto jornalista formada que sou e me inquieta enquanto professora do curso de Comunicação Social da Uern.
O jornalismo, assim acredito, é uma profissão nobre e deve ser exercida com paixão, responsabilidade e ética. Foi por paixão que escolhi ser jornalista, é com responsabilidade que busco agir. Mas a ética eu não aprendi na profissão, tampouco na faculdade. Aprendi com meu pai, porque a ética do jornalista é a ética do cidadão e o que é ruim para o jornalista, também o é para o cidadão. Essa é uma ideia que compartilho com Claudio Abramo, um dos maiores da nossa profissão. Na “Regra do Jogo”, livro que conta um pouco de sua história, ele nos ensina que o cidadão não pode trair a palavra dada, nem deve abusar da confiança do outro e nem mentir. “No jornalismo, o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador é o mesmo que existe em qualquer outra profissão”. Por isso, ele afirma que o jornalista não tem ética própria. Porque antes de tudo eu sou um cidadão ético ou não. Embora eu não seja responsável pela disciplina de Ética, esse é um texto que sempre levo para meus alunos, os que passaram, os atuais e certamente os que virão. É bom compartilhar com o próximo bons exemplos e eu considero esse um bom texto, capaz de provocar uma boa reflexão.
O caso do blog “Paulo Doido”, se analisado pela ótica do jornalismo, no que se refere aos valores-notícias de que falam os manuais, rompe as fronteiras da terra de Santa Luzia e ganha o mundo. No jargão do jornalismo, é uma pauta que rende. Talvez até exista, mas não me ocorre agora outro caso semelhante a esse. Um jornalista experiente e perspicaz vai saber pautar muito bem essa história e isso independente dos nomes dos envolvidos, porque eu tenho todo o direito e a liberdade de não gostar do político x ou y, mas não posso ignorar a função que ele exerce que, como qualquer outra, merece respeito.
Tem-se a falsa impressão de que a internet é um mundo sem lei, mas aos poucos essa impressão vai se desmanchando no ar. Hoje todo mundo faz um blog, todo mundo tem liberdade para falar, mas o compromisso do jornalista é com a informação, além do mais o verdadeiro jornalista jamais se esconde no anonimato.
Não tenho nenhum tipo de relação com nenhum dos Rosados, só os conheço de ouvir falar. Não tenho interesse nenhum nas questões políticas que envolvem o caso do apócrifo blog, mas fico doida da vida com quem se diz jornalista e corrompe o que há de mais belo na profissão: o poder de falar e tenho todo interesse do mundo na prática do bom jornalismo. É isso que defendo em minha sala de aula, mesmo com todas as dificuldades da profissão, de míseros salários, sobrecarga de trabalho, limites editoriais, não obrigatoriedade do diploma e tanta falta de ética.
*Márcia Pinto é Jornalista e Professora da UERN.
Transcrito da Revista Papangu nº 68
















































Nenhum comentário :
Postar um comentário