Por Eduardo Guimarães
Quem assistiu ao Jornal da Globo do primeiro dia útil desta semana deve ter passado por várias emoções seguidas, entre o começo e o fim da primeira matéria daquela edição do telejornal. A expressão do rosto do âncora Willian Waack ao anunciar uma “difícil realidade” no mercado de trabalho, foi desanimadora. Mas só até assistir à matéria que sobreviria.
Quem assistiu ao Jornal da Globo do primeiro dia útil desta semana deve ter passado por várias emoções seguidas, entre o começo e o fim da primeira matéria daquela edição do telejornal. A expressão do rosto do âncora Willian Waack ao anunciar uma “difícil realidade” no mercado de trabalho, foi desanimadora. Mas só até assistir à matéria que sobreviria.
Saí para comprar cigarros no início da madrugada desta terça-feira e eis que flagro o porteiro do meu prédio assistindo, em sua TV portátil, à abertura do telejornal. Em vez de ir direto à jaula em que a pessoa fica presa para entrar ou sair de um condomínio que também é cercado por fios elétricos de alta tensão, sendo dotado de um aparato de segurança digno de campo de concentração, acheguei-me a ele, como que prevendo o que viria pela telinha.
Entra a locução de Waack:
“Pleno emprego e baixa taxa de desemprego são números positivos que escondem uma difícil realidade (…)”.
Uau! O que é que viria por ali, pensei. Talvez uma denúncia sobre aviltamento das condições de trabalho, apesar do “pleno emprego” que passaria a ser comentado.
Entra a locução de Waack:
“Pleno emprego e baixa taxa de desemprego são números positivos que escondem uma difícil realidade (…)”.
Uau! O que é que viria por ali, pensei. Talvez uma denúncia sobre aviltamento das condições de trabalho, apesar do “pleno emprego” que passaria a ser comentado.
Só poderia ser isso, porque “difícil realidade”, para mim – e, como se verá a seguir, também para o porteiro do meu prédio –, era quando não havia emprego e os patrões podiam escolher até engenheiros para trabalhar como lixeiros – alguém se lembra das reportagens da Globo sobre pessoas formadas que, na era FHC, entravam em filas para se candidatar a vagas de lixeiro?
A denúncia sobre a tal “difícil realidade”, porém, não dava conta de qualquer aviltamento das condições de trabalho. Muito pelo contrário, informava o telespectador de que estão melhorando as condições de trabalho oferecidas pelos patrões em praticamente todos os setores da economia, com oferta de melhores salários e maiores benefícios.
E continuava a locução desanimadora do âncora Waack:
“(…) a dificuldade para achar trabalhadores qualificados leva as empresas a uma disputa que emperra o crescimento da economia”.
Entra a locução da segunda âncora do telejornal, Cristiane Pelajo:
“Esse é um dos problemas do mercado de trabalho brasileiro que o Jornal da Globo começa a tratar agora na série Emprego”.
A reportagem não mostra problema nenhum. É até bem feitinha, aliás. Mostra uma situação dourada na economia brasileira. Situação que um homem da minha idade, já na quinta década de vida, jamais vira neste país.
Assista abaixo, a reportagem do Jornal da Globo que revela um país em que o trabalho se valoriza porque, agora, o empresariado não pode mais contratar pelo salário que quer, mas pelo salário que o trabalhador aceite. Em seguida, apresento a conclusão que o tal porteiro verbalizou sobre a “difícil realidade” brasileira.
EMPRESAS TÊM DIFICULDADE PARA ENCONTRAR
TRABALHADORES QUALIFICADOS
O porteiro e eu ainda permanecemos em silêncio por alguns longos segundos, ao término da apresentação da matéria. Então fiz uma provocação àquele pernambucano de 46 anos, com instrução fundamental mínima. Travou-se o seguinte diálogo:
– Edu: Que droga, hein, cara! Que “difícil realidade”, gente!
– Porteiro: Ô, seo Edu, desculpa eu discordar do senhor, mas situação difícil era antigamente, quando eu vim pra São Paulo e morei até debaixo da ponte porque não achava emprego.
– Edu: Mas e os empresários, coitados! Não viu aquele que só quer crescer 30% este ano e não encontra mão-de-obra?
– Porteiro: Pô, seo Edu, desculpa, mas eu não tenho pena de patrão, não. E se ele vai crescer 30% a situação dele não tá nada difícil. Difícil é o sujeito não encontrar trabalho, pô!
– Edu: Mas… Cara… Pelo que a Globo mostra, a situação do país está uma merda.
– Porteiro: Tá não, seo Edu. Tá ótima. Tem um monte de gente estudando. Vai ter gente pra trabalhar, lá na frente. Eu não estudo, mas tô pensando… O senhor sabia que me convidaram pra trabalhar no “Lambda”?
– Edu: O prédio aí de cima?
– Porteiro: Sim senhor! Ofereceram R$ 1.300. Só não vou por causa dos bicos, aqui, que dão mais que o salário.
O porteiro do prédio pintou um apartamento, recentemente, e cobrou R$ 2.800.
– Edu: Mas, então, por que a Globo diz que a situação é difícil – inquiri, mantendo a provocação
– Porteiro: Seo Edu, a Globo está reclamando em nome dos patrões, que gostam de pagar salário baixo. Agora, pra conseguir empregado, tem que pagar mais.
– Edu: Ah, tá. Agora entendi. Bem, boa noite, cara. Bom serviço…
– Porteiro: Valeu, seo Edu. E não esquenta a cabeça com a Globo, tá?
– Edu: Ok, vou confiar em você, bicho. Fiquei até mais tranqüilo, agora.
Enviado por Rui Nascimento

















































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