quinta-feira, 6 de maio de 2010

CUIDADO COM OS "AGREGADORES"


Por José Paulo Kupfer


Desconfie, quando se está falando de contas públicas, das análises baseadas apenas em dados agregados. Ao misturar alhos com bugalhos, elas podem conduzir a erros de avaliação e a diagnósticos que distorcem a realidade.


As análises a partir do resultado das contas públicas do primeiro trimestre de 2010, divulgado semana passada, como em tantas outras ocasiões, padeceram desse mal já crônico. “Março apresentou o pior resultado da série e o primeiro déficit primário desde o seu início, um resultado que seria pior ainda não fosse o superávit primário de estados e municípios”, cantaram os “agregadores”.


O diagnóstico a que chegaram é o de que as contas públicas mostram uma tendência muito preocupante: os gastos públicos avançam em ritmo superior ao das receitas, com o agravante de essas crescem como nunca.


Daí para concluir que o governo – e, no caso, o governo federal – está fazendo e desfazendo, em ano eleitoral, não foi nem um passo. A idéia subjacente é a de que aumentam em proporções descontroladas a contratação de pessoal, a remuneração da “turma” e as despesas da “máquina”.


Quando, porém, se olham os dados desagregados, a visão que se tem é bem outra. Esse é o exercício honesto que o economista Amir Khair, experiente especialista em contas públicas, faz todo santo mês. O que Amir observou, ao examinar cada item de março e do primeiro trimestre, em resumo, foi o seguinte:


“A piora de resultados ocorreu na esfera dos estados e municípios devido a uma elevação anormal nas despesas com juros. A despesa de custeio do governo central cresceu neste trimestre em relação ao de 2009 em valores nominais 15,9%, abaixo do crescimento da receita líquida (receita total menos transferências a estados e municípios) que foi de 17%.”


A despesa total (custeio mais investimentos) registrou alta de 19,3%, ficando, de fato, um pouco acima das receitas. Mas, aí, o impacto mais forte veio dos investimentos, tão reclamados justamente pelos “agregadores”, com um aumento de 116% no trimestre sobre o mesmo trimestre de 2009. Os gastos de custeio subiram, no primeiro trimestre deste ano sobre o mesmo período do ano passado, 15,9%, abaixo do crescimento das receitas.


O grande vilão e suspeito de sempre, as despesas de custeio com “pessoal e encargos”, no primeiro trimestre deste ano, em relação ao primeiro trimestre de 2009, avançaram 7%. Comparado com as projeções para a inflação em 2010, é uma expansão mais do que moderada, muito longe do descabelamento que provoca.


Deveriam chamar mais a atenção as contas de juros dos estados e municípios. Elas cresceram, no acumulado de janeiro a março de 2010, três vezes o montante do mesmo período de 2009.


O resumo sereno da história é, analisando como se deve, percebe-se que as contas públicas, se não se encontram no melhor dos mundos, estão longe do descontrole que as costumeiras avaliações descabeladas querem fazer entender.

Enviado por Flaubert

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/jpkupfer/

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