UM PRESIDENTE EXEMPLAR
“Pepe não tem conta bancária nem cartão de crédito.
Vive com o mínimo possível, que considera bastante.”
O presidente do Uruguai não quer morar em Palácio. Sua residência oficial é a mesma em que reside há anos, desde que saiu da cadeia. Ele passou catorze anos no cárcere, dos quais a maioria em prisão solitária, durante a ditadura militar, por ser um guerrilheiro tupamaro. A guerrilha do Uruguai teve todas as condições de vencer sua luta contra o regime ditatorial; só não o fez porque sabia que as tropas brasileiras invadiriam o país vizinho. Os gorilas brasileiros não iam aceitar uma república independente com um governo de esquerda ao sul do Rio Grande do Sul, para onde fugiriam os perseguidos pela ditadura brasileira.
Quem é esse presidente que mora numa casa modesta, sem mordomias e com muitos livros, onde ele mesmo é o cozinheiro do seu cardápio simples? Trata-se de Pepe Mujica, casado com a senadora Lucía Topolansky. Ele mesmo dirige o fusca do casal, e vai às ruas sem seguranças. Na frente de sua casa, a dez quilômetros de Montevideo, apenas dois seguranças montam guarda. Fazem o papel de recepcionistas, para atender os populares que procuram Pepe – nascido José Alberto Mujica Cordano. Não confundir com o nome do célebre cantor mexicano, o franciscano José Francisco de Guadalupe Mojica, que deixou a vida mundana para se tornar frade, falecido em 1974, no Peru.
Pepe leva uma vida monástica. Ele mesmo maneja o pequeno trator com que ara as terras onde produz as hortaliças para seu consumo. Transformou o Palácio presidencial num albergue para os sem teto. Só recebe 10% (dez por cento!) de seu salário. O resto, ele destina à construção de moradias para os pobres. Pepe economiza até na cadela que adotou: Manuela só tem três pernas. O animal foi acidentado, perdendo uma perna, mas recebeu toda assistência e amparo na casa do presidente tupamaro, onde vive há dezoito anos. O país encontrou abrigo em Pepe, que vendeu a vivenda oficial de verão, em Punta del Leste, para investir o dinheiro em obras sociais.
Pepe não tem conta bancária nem cartão de crédito. Vive com o mínimo possível, que considera bastante. É a porciúncula a que se sujeitam os monges budistas, que se alimentam de um punhado de arroz, e os monges cristãos que fizeram voto de pobreza. Com isso, o presidente tupamaro quer dar um exemplo preservacionista, pois acredita que o planeta não tem condições de suportar, por muito tempo, o consumismo da civilização de consumo. Segundo o presidente tupamaro, a febre consumista logo esgotará os recursos naturais não renováveis.
Ele é tido como o presidente mais pobre do mundo. Diz que não é pobre: pobres são os que precisam de muito, como ensina a máxima de Sêneca (precisar de muito é uma falsa necessidade). O presidente revela que seu estilo não é uma valorização da pobreza, mas uma valorização da sobriedade no viver. Pobreza é a falta do necessário, e isso Pepe não que para ninguém; ele quer que todos tenham o bastante, e isso só é possível com sobriedade no consumo. Ele tem sua própria visão do dinheiro: “as pessoas não compram com o dinheiro, compram com o tempo que tiveram e gastar para ter esse dinheiro”.
Pepe completou 78 anos, três como presidente, sobrevividos à luta, à prisão e à tortura, para dirigir os destinos de seu povo e dar exemplo aos políticos do mundo e à humanidade. Ele mesmo vai ao mercadinho, com sua esposa, comprar sua modesta feira. “Nossa época continua dirigida pela acumulação e pelo mercado. Prometemos uma vida de resíduos e desperdícios”.
Pepe é a favor de uma sociedade libertária e sem classes: ninguém é melhor do que ninguém”. Nem ele mesmo.

















































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