PROMOTORA GARANTE: "HOUVE COMPRA
DE VOTOS, USO DA MÁQUINA
E ABUSO DE PODER"
A avaliação da promotora Ana Ximenes é que não há dúvidas que houve
compra de votos e abuso do poder político na disputa eleitoral que levou
a vereadora Cláudia Regina, do DEM, a ser eleita prefeita de Mossoró.
Isso porque em manifestações pelo Twitter, a promotora eleitoral
(@AnaXimenes2012) responsável pelas seis ações que pedem a cassação do
registro da candidata e a realização de nova eleição na cidade não só
garantiu que houve as irregularidades, como também acredita que “a
Justiça Eleitoral imporá a Lei”.
As afirmações no microblog foram feitas após as representações serem
noticiadas em Natal e em Mossoró. Ana Ximenes interagiu com diversas
pessoas e respondeu a perguntas sobre o processo.
“Não há suposições em
nossas representações, pois por lei tais ações só podem ser intentadas
com prova robusta”, afirmou.
Em seguida, Ana Ximenes revelou que as representações que o
Ministério Público Eleitoral ingressou na Justiça Eleitoral contra
Cláudia Regina foram várias constatadas durante a campanha. “As seis
ações com as quais o MPE ingressou foram apenas os casos mais gritantes.
E mais: houve muito abuso de poder político (uso ilegal da maquina
pública)”, destacou.
Pelo que O Jornal de Hoje teve acesso, uma das representações foi por
compra de votos e as outras por abuso de poder político, praticado por
Governo do Estado e Prefeitura de Mossoró.
Na Prefeitura, esse abuso teria tido a participação do secretário
municipal de Meio Ambiente, Alexandre Lopes, e pelo irmão da prefeita, o
secretário-chefe do Gabinete Civil, Gustavo Rosado. Os dois teriam
promovido reuniões e deslocado servidores municipais em horário de
expediente para trabalhar e pedir votos para Cláudia Regina. Em um
desses encontros, o que estava Gustavo Rosado, outros secretários
estaria participando e tudo foi registrado por fiscais da Justiça
Eleitoral.
No Governo do Estado, a participação seria da própria governadora
Rosalba Ciarlini. Ela teria nomeado Rafaella Nogueira, a filha do
vereador Chico da Prefeitura, do DEM, para um cargo comissionado no
Detran para garantir o apoio do parlamentar a candidatura de Cláudia
Regina. Por querer ser o candidato a prefeito do DEM, Chico estaria no
início da campanha cogitando apoiar Larissa Rosado, do PSB, principal
adversária da democrata.
“Nossas provas vão de autos da prisão em flagrante a declarações
feitas pelos próprios representados. São robustas. Realmente. O que não
foi livre foi o sufrágio em Mossoró”, garantiu a promotora, que assinou
as representações junto com Karine Crispim, também promotora eleitoral.
“A realidade não é feita de retórica, e sim de fatos. As provas mostram
que houve compra de votos”, ressaltou.
Sobre a atuação do MPE em Mossoró, pedindo multa para os ocupantes de
cargos públicos denunciados no esquema e a cassação do registro ou da
diplomação de Cláudia Regina e seu candidato a vice, Wellington Filho,
do PMDB, Ana Ximenes afirmou: “É para restaurar o direito de escolha sem
pressões nem abuso de poder econômico que o MPE age. MP não é contra
nem a favor de candidatos, mas sim contra a compra de votos”.
Pelo fato da denúncia ser contra um grupo que já está há anos no
poder em Mossoró, alguns “twitteiros” afirmaram que isso não chegou a
ser uma novidade em 2012. Ana Ximenes, porém, evitou fazer comentários
nesse sentido.
“Não sei como os candidatos a prefeito de outras eleições venceram,
mas nesta foi com violação dos artigos 41-A e 73 da lei eleições”,
afirmou Ana Ximenes, revelando que chegou a ficar à noite, no cartório
eleitoral, para exigir fiscalização. “Quem compra votos não está a favor
do povo, pois o dinheiro da compra geralmente não é doação a fundo
perdido”.
MP afirma que cimento foi trocado por voto na eleição
Claro que não foi só pelo Twitter que O Jornal de Hoje se comunicou
com Ana Ximenes. Houve também entrevista por telefone, onde a promotora
eleitoral deu mais detalhes sobre como as representações foram feitas e o
porquê do pedido de nova eleição em Mossoró. “Não somos contra nenhum
candidato, apenas queremos a liberdade do sufrágio, do voto, em
Mossoró”, explicou.
A necessidade de um sufrágio livre, por sinal, seria o motivo pelo
qual Ana Ximenes e Karine Crispim entraram com as representações contra a
candidata Cláudia Regina. Até porque, segundo ela, enquanto promotora,
quem vai ganhar não é o principal, mas sim como a disputa eleitoral vai
ocorrer. “Se numa nova eleição houver o mesmo resultado, tudo bem, desde
que saibamos que o sufrágio foi livre, que as pessoas tiveram liberdade
para escolher em quem vota”.
Por sinal, conforme explicou a promotora, o pedido de nova eleição se
justificou devido ao fato das denúncias serem de “compra de voto” e
pelo chamado “uso da máquina”. “Esses dois assuntos não exigem que
necessariamente tenham sido suficientes para determinar a eleição. Basta
um caso de compra de voto, por exemplo, para que o candidato possa e
deva ser condenado por compra de voto”, explicou a promotora.
Mesmo assim, Ana Ximenes fez questão de lembrar que a candidata
Cláudia Regina não alcançou nem mesmo 50% do total do eleitorado de
Mossoró. A vatangem da candidata do DEM para Larissa Rosado, do PSB, de 5
mil votos, inclusive, seria “irrisória” se tratando de um universo de
mais de 164 mil eleitores existentes na Capital do Oeste.
Além disso, Ximenes também reafirmou que há mesmo provas robustas que
comprovam as acusações e explicou de forma didática: “representações
sobre isso se equivalem a mandado de segurança na Justiça comum, só
podendo ser colocado quando há prova robusta”. Vale ressaltar que são
três ações por compra de votos e três por abuso de poder.
Na entrevista ao JH, por sinal, Ana Ximenes ressaltou um caso de
compra de voto que chamou atenção: a troca de voto por cimento.
Um
estabelecimento comercial fez um cadastro de eleitores e trocava a
promessa de voto por um crédito de R$ 50,00 valor que poderia ser
resgatado depois da eleição. Quando uma dessas pessoas foi ao local
pegar o cimento prometido, estava um policial militar presente, que
levou a pessoa para a Polícia Federal, onde se lavrou o ato de prisão em
flagrante.
Sobre como o Ministério Público Eleitoral chegou a essas
representações um mês depois de terminada as eleições, ela explicou que
algumas denúncias estavam na promotoria da 33ª zona eleitoral (referente
a propaganda eleitoral) e, como ela é da 34ª (registro de candidatura),
não tinha tido conhecimento. “Alguns dessas denúncias também foram
feitas na véspera ou na antivéspera do pleito do dia 7 de outubro”,
acrescentou.
Segundo Ana Ximenes, as que estavam na 33ª ela teve conhecimento
quando foi fazer um levantamento necessário antes de iniciar a fase de
prestação de contas. “Nos deparamos com essas provas e demos início à
produção das representações”, explicou.
ATUAÇÃO
Pedir a cassação da prefeita eleita na segunda maior cidade do Estado
não é o primeiro caso polêmico na qual a promotora participa. Para quem
não lembra, em abril deste ano, ela participou da autuação de mais de
35 postos de combustíveis em Mossoró (dos 42 instalados no município),
por prática abusiva de preços para a gasolina. Na época promotora de
Defesa do Consumidor, Ximenes solicitou a fiscalização e afirmou que
esses estabelecimentos devem ser punidos administrativa e judicialmente.
Na época, inclusive, ela também utilizou o Twitter para se manifestar
sobre o caso. “No que depender da Promotoria do Consumidor de Mossoró,
postos autuados serão multados e responderão a ACP em cujo final pagarão
indenização. Não importa o tempo que levar. Ainda tenho uns vinte anos
de promotoria do consumidor pela frente”, comentou.
Teor das representações feitas pelo MPE contra
Cláudia Regina
Cláudia Regina
VOTO POR CIMENTO
O caso dito por Ana Ximenes sobre o cimento é referente a uma ocorrência registrada no dia 5 de outubro, quando a Polícia Federal prendeu em flagrante Wanderson Diniz Lima, proprietário de A Kanaã Construções, após denúncia de Kayo Mayro. Este teria se apresentado no estabelecimento comercial como eleitor de Cláudia Regina e teria recebido por isso um crédito de R$ 50 para cimento que poderia ser resgatado 48 horas após as eleições. “Peculiaridade ardilosa de constituir no pagamento ou entrega do bem ‘cimento’ somente dois dias após a votação, de maneira a construir um elo psíquico com o eleitor portador do cupom/comprovante que garantia seu voto em Cláudia Regina e Wellington Filho”, apontou o MPE.
FILANTROPIA MASCARADA
No mesmo dia (dois dias antes da votação em primeiro turno), o empresário Edvaldo Fagundes anunciou que se Cláudia Regina ganhasse o pleito ele faria a doação a entidades beneficentes de um montante que totalizava R$ 600 mil, referente a apostas feitas por ele. Na lista consta: a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), Abrigo Amantino Câmara, Lar da Criança Pobre e Casa dos Doentes Renais. Organizações conhecidas por serem idôneas. Para o MPE, a atitude teve a finalidade de obter votos para os candidatos da coligação Força do Povo. Inclusive, porque as empresas de Edvaldo Fagundes, que formam o Grupo Líder, foram as que mais doaram à campanha de Cláudia Regina, totalizando quase R$ 400 mil – atrás somente os diretórios do DEM, que totalizaram mais de R$ 2 milhões. “Com efeito, para os eleitores enredados na captação ilícita de sufrágio supradescrita, principalmente os indecisos, a promessa de doação em caso de vitória dos candidatos representou forte impacto e, embora mascarada de ato filantrópico, consistiu em acintosa ofensa ao direito de sufrágio, destinada a comprar a adesão daqueles que não colocaram seu voto à venda mediante fornecimento de vantagens individuais”, apontou o MPE.
Há também questionamentos sobre o empréstimo de um helicóptero de
propriedade do empresário a campanha de Cláudia Regina. Tal atitude
poderia representar abuso de poder econômico, mas isso ainda está,
apenas, em fase de investigação pelas promotoras Ana Ximenes e Karine
Crispim
VOTO POR ÓCULOS
Se no passado alguns eleitores vendiam seus votos por dentaduras, em Mossoró eles podem ter vendido por óculos. Isso porque o MPE encontrou uma distribuição de cupons que seriam trocados após as eleições por óculos na Ótica Boa Vista. Para recebê-los seria necessário votar em Cláudia Regina.
Avaliação do MPE: A estratégia era a de entregar os óculos 48 horas
após as eleições, a mesma usada no caso do cimento citado no começo da
matéria. Chamou atenção também o fato de a ótica viver, segundo apurou o
MP, “de portas fechadas” e não possuir inscrição no Cadastro Nacional
de Pessoas Jurídicas (CNPJ).
Fonte: Jornal de Hoje


















































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