POR OBRA DIVINA OU POR DESGRAÇA
Se voltei, voltei não, necessariamente,
porque senti saudade. Se voltei, voltei não pela carência de
evidência ou pela vaidade, pelo desejo de ser admirado. Se voltei,
voltei não para questionar a crença de uma banda ou a certeza da outra
metade.
Se voltei, voltei não para determinar
que o objeto essencial da reflexão filosófica é a verdade. Se voltei,
voltei não para consignar o espanto com o facciosismo da crônica, ainda
que toda crítica revele-se partidariamente apaixonada.
Se voltei, voltei não para denunciar a
falta de justiça, a iniquidade. Se voltei, voltei não para censurar o
fundamentalismo, a carência de liberdade. Se voltei, voltei não para
desaprovar a difusão da mentira, da aleivosia, da leviandade.
Se voltei, voltei não para revelar que é
preciso repensar e redesenhar a prática democrática. Se voltei, voltei
não para lembrar que inexiste equilíbrio relativizado. Se voltei, voltei
não para medir o tamanho do verde ou calcular o peso do alaranjado.
Se voltei, voltei não para me queixar da
ingratidão, da indiferença, da insensibilidade. Se voltei, voltei não
para manifestar ressentimento, mágoa, ou desagrado. Se voltei, voltei
não para expressar o lamento de um coração cansado, fatigado, entediado.
Se voltei, voltei não para acusar
detalhes de uma vida marcada, principalmente, na adversidade. Se voltei,
voltei não para dizer que o que tranquliza é saber que tudo passa, nada
é perpetuado: o poder, a impossibilidade; a ausência, a presença; a
tristeza, a felecidade.
Se voltei, voltei por não sentir-me
suficientemente forte a, simplesmente, ceder ou desistir de um ofício de
que, por obra divina ou por desgraça, me tornei, irremediavelmente,
inveterado.

















































Nenhum comentário :
Postar um comentário