EM TEMPOS DE BELFIE
Em um tempo em que muitas pessoas ainda nem sabem o que é “Selfie” (nova moda entre os jovens, que fotografam seus semblantes para divulgação em redes sociais – selfie é um neologismo com origem no termo self-portrait, que significa autorretrato), desponta no mercado a tendência mais revolucionária de nossa geração: o “belfie”.
O “belfie” nada mais é do que do que o compartilhamento de
fotografias em que o traseiro (sim, ele mesmo) é o grande protagonista.
Este é o tempo no qual as bundas (em sua maioria, bundas de beldades,
que se contorcem entre os aparelhos de ginástica) resolveram buscar o
espaço que para elas é de direito, e povoar páginas da internet,
promovendo a alegria de muitos, o infarto de alguns, e dor de cabeça em
quase todos.
Por mais estranho que pareça, o “belfie” é uma realidade
que já se tornou viral entre dezenas de milhares de jovens, e que de
certa forma reflete um pouco das contradições de nossa geração. O
envaidecimento, culto ao corpo e o desejo de visto são só alguns dos
pontos que nitidamente chamam a atenção, mesmo de psicólogos de
botequim, assim como eu.
Sem desespero de tentar “teorizar a bunda”, é
preciso lembrar que vivemos diante de nítida influência de um
capitalismo tardio, envelhecido e cheio de idiossincrasias, que incide
sobre essa juventude uma forte pressão. É preciso ser rico, famoso,
bonito, curtido. É preciso ser visto, e para ser visto é preciso chamar a
atenção. É aí que a bunda entra de supetão na história.
Seria
simplório acusar essa juventude cibernética de “carência emocional”,
“falta de cultura” ou mesmo “vazio espiritual”, para justificar as
incongruências de nossa época. Tais respostas surgem sempre que alguém,
autodidata na disciplina de sapiência, tenta reunir todos os porquês do
mundo dentro de um mesmo balaio.
Famosas de várias partes do mundo já
entraram na onda do bundalelê. A lista do “belfie” inclui das irmãs
Kardashians, socialites estadunidenses, até a nossa eterna “Miss Bumbum”
Andressa Urach, e elas já provaram que não é só o povão que quer
curtidas e afagos nas redes sociais.
O “belfie” é um microcosmo de
uma sociedade que onde se vive com carros mais caros do que casas, onde
os indivíduos possuem mais televisões do que cômodos, e onde se compra
mais do que se pode pagar. Uma sociedade de consumo, que busca se
renovar constantemente e que precisa de novos produtos. A bunda, um
artigo velho, nunca cairá em desuso, e vive seus tempos mais gloriosos e
sombrios com a eminência do “belfie”.
Os machistas de plantão
saltarão de suas cadeiras defendendo o “belfie” como se defende um
filho. “ Deixem fotografar”, “é liberdade de expressão”, “se tirou é
porque é vagabunda”, vão ser apenas alguns dos sensatos argumentos dessa
rapaziada, que viraria paladina da pureza, da moral e dos bons
costumes, caso estivéssemos falando aqui de um “belfie gay”.
Para
além da “liberdade de expressão”, o “belfie” é um sintoma. Um sintoma de
que a sociedade está saturada, que virou uma panela de pressão social
prestes a explodir e derramar sujeira por toda a sala. É sintoma de que
os tempos mudaram, certamente, e que essa mudança não tem sido
assimilada tão bem por milhares de jovens que confundem “bumbum” com
Beauvoir. Diante de uma realidade tão corrida nas grandes cidades, e do
império cibernético que nos circula, é preciso refletir e pisar no
freio, é preciso ouvir e dialogar com essa juventude para além dos
microshorts estampados nas páginas de internet.
Que façamos do
“belfie” um sinal dos tempos, uma resposta radical e consciente de uma
geração que quer se libertar, quer se desprender das correntes que as
prendem (em uma alusão clássica, à pensadora feminista Rosa Luxemburgo).
O “belfie” hoje é um mercado lucrativo, de emoções e valores de uma
época, e infelizmente é a ala mais despolitizada e até ingênua, quem tem
feito da nova moda estandarte.
Pode parecer um pecado de minha
parte, mas volto a lembrar de Simone de Beauvoir, que certamente foi a
primeira vítima (e certamente a mais célebre do “belfie”), quando seu
affaire norte-americano Art Shay, lhe imortalizou nua, em uma das mais
belas fotografias da história. Esse é o caminho.
Por mais nudez
explícita e artística e por muito menos mercado de mulheres, por mais
“belfies” cheios de amor, de erotismo e romantismo, e muito menos
mercado de carne. Que o “belfie” e suas contradições façam uma nova
sociedade surgir, de maneira mais sadia, progressista e flexível.
Que
os “belfies” os “trelfieis” e os “bordeifies” se compartilhem, mas que
sejam fruto inalienável de nossa consciência e paixão. Que as únicas
“cutucadas” que essas bundas desejem sejam reais, e cheias de “más”,
porém sinceras intenções.
Que esse manifesto fique para posteridade!
Declaro o “belfie” patrimônio histórico da humanidade. Cuidem dele com
todo amor e carinho que uma bela bunda merece!
Por Bruno Barreto
O Mossoroense

















































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