COPA DO MUNDO NO BRASIL:
UM PRIMEIRO BALANÇO
O que é pior, o vira-latismo ou o puxa-saquismo?
Se o primeiro se confundir com espírito crítico certamente o segundo é pior, porque mera bajulação.
Comecemos
pelo começo: a imagem do Brasil depois da Copa é muito melhor do que,
com carradas de motivos, se imaginava antes dela.
Fez-se, em resumo, um bom anúncio do país.
Porque houve a festa que se imaginava que haveria nos estádios e não houve a tensão prevista fora dele.
Por
incrível que possa parecer, Joseph Blatter, o poderoso chefão da Fifa,
tinha razão: a sedução do futebol falou mais alto, ainda mais porque,
paradoxalmente, se a Copa não apresentou nenhuma seleção inesquecível,
mostrou jogos formidáveis, como uma homenagem ao país que já foi o do
jogo bonito.
Repita-se para suavizar o que virá a seguir: o Brasil
ganhou a 20a. Copa do Mundo da Fifa e ainda por cima prendeu gente dela
que há décadas atenta contra a economia popular, um legado inestimável,
exemplar, digno de ser aplaudido de pé assim como a hospitalidade
nacional.
Tamanhas vitórias não escondem as derrotas e aqui não se fará nenhuma menção, além desta, à goleada alemã.
Por
falar nisso, em alemães, nossa Copa foi muito melhor que a da África do
Sul, mas não foi, como organização, melhor que a de 2006.
Claro,
da Alemanha se espera perfeição e a Alemanha esteve perto disso. Do
Brasil esperava-se uma catástrofe e o Brasil ficou longe disso.
Contudo,
na Alemanha não foram construídos elefantes brancos como os de Manaus,
Cuiabá, Natal e Brasília, cujas contas jamais serão pagas a não ser que
ocorra mais um milagre brasileiro.
Lá não morreram tantos
trabalhadores, nem caiu viaduto com duas mortes, nem se desalojou tantas
famílias, nem nada custou tanto a ponto de a nossa Copa ter superado o
custo dos três últimos torneios e nenhum estádio foi invadido por
torcedores como o Maracanã pelos chilenos. Tampouco faltou luz no jogo
de abertura.
Esquecer tais fatos em nome da imagem externa é que é o verdadeiro vira-latismo, como se a aprovação estrangeira nos bastasse.
É
verdade sim que o governo federal, um mês antes de a Copa começar,
partiu em busca de empatar um jogo que perdia por 4 a 0 e que conseguiu
vencer, digamos,por 6 a 5 — o que exige elogios ao ataque assim como
críticas à defesa.
Ocorre que há quem queira fazer apenas elogios e
outros que só desejam criticar, todos movidos ou por cegueira
partidária ou por outros interesses.
Não se trata de negar o
sucesso da Copa, mas de dizer que poderia ser melhor.Tudo, aliás, sempre
pode ser melhor, por melhor que tenha sido.
Trata-se de não
esquecer o quanto custou em vidas e dinheiro, em desalojamentos e
atrasos, em remendos de última hora, uma porção de coisas para as quais
os estrangeiros não estão nem aí, mas que devem preocupar os que estão
aqui e que, enfim, pagarão a conta.
Porque outro legado da Copa é a
consciência de que megaeventos são muito bons para quem os promove e
para as celebridades que gravitam em torno,mas não são necessariamente
bons para quem os recebe, razão pela qual será excelente se os próximos
forem submetidos à consulta popular.
O turista que veio não se
hospedou nos melhores hotéis nem comeu nos melhores restaurantes,
preferiu albergues ou sambódromos, lanchonetes ou churrasquinhos de
gato.
Até mesmo os aeroportos inconclusos (o de Brasília é
simplesmente espetacular, registre-se) suportaram bem a carga,entre
outras razões porque o movimento foi menor que o normal neste período.
Em
resumo: o Brasil ganhou a Copa de virada e o resultado pode ser
considerado excepcional, digno de comemoração para irritação dos
vira-latistas.
Mas não foi de goleada como bimbalham os puxa-sacos.
Além do mais, se o jogo acabou para o mundo, segue correndo no nosso campo.
A um custo que ainda será mais bem apurado.
Fonte: Blog de Juca Kfouri
Por Juca Kfouri

















































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