A QUESTÃO NÃO É MAIS A
DEMANDA E SIM A OFERTA
Do ponto de vista econômico, o ano começa sob o efeito das inúmeras
intervenções ocorridas no ano passado. Uma das heranças é o patamar da
taxa de câmbio, que subiu de R$ 1,70 para R$ 2,00, com as atuações do
Banco Central (BC) e as inúmeras declarações do ministro da Fazenda
Guido Mantega. Na área do consumo, houve a redução do Imposto sobre
Produtos Industralizados (IPI) para automóveis a fim de aquecer a
indústria e, por fim, o governo segurou forçadamente o ajuste do
combustível, afetando as ações da Petrobras, que perdeu R$ 180 bilhões,
nada menos que 50% do seu valor de mercado, em dois anos.
Apesar do empenho em criar medidas, a equipe econômica parece
insistir em remédios que perderam efeito, e deixa de lado o que
realmente deveria fazer. Desde a recessão sofrida pelo Brasil em 2009, a
estratégia do governo se resume a estimular o consumo, seja pela
redução de impostos ou pela expansão da oferta de crédito.
Medidas desse tipo foram bem-sucedidas para tirar a economia
brasileira da recessão e fizeram a variação do Produto Interno Bruto
(PIB) passar de uma retração em 2009 para um crescimento de 7,5% em
2010. No entanto, o combustível desse motor acabou. A população
brasileira agora está mais endividada, não há mais espaço para redução
do desemprego e não há perspectiva de crescimento futuro. Assim, o tão
sonhado "Pibão" da presidente fica cada vez mais distante.
Além de termos um crescimento baixo, temos inflação alta, em outras palavras, o pior dos dois mundos
Os números não mentem: em 2012 amargamos, em berço não tão
esplêndido, o pífio PIB de 0,9%, e a projeção de 2013 já está em 3%, um
número baixíssimo para um país em desenvolvimento. Mas ainda há tempo
de refletir e mudar o curso.
Enquanto o governo estimula o crédito e o consumo desenfreados, ele
alimenta o velho e cada vez mais presente fantasma do custo Brasil. Com
uma infraestrutura capenga, os puxadinhos criados dia após dia (como
intervenção no câmbio e controle forçado de preço do combustível)
perdem a eficácia e tentam tampar o sol com a peneira.
Para termos uma dimensão de quanto o Brasil deixa a desejar, basta
fazermos uma comparação. De 2007 a 2012 o nosso país fica em último
lugar em matéria de crescimento quando comparado com alguns vizinhos
sul-americanos: Chile, Peru e Colômbia.
No período citado o Chile cresceu em média 4,2%; a Colômbia, 4,4%; o
Peru, 7%; e o Brasil, apenas 3,7%. O crescimento maior não veio à toa.
Enquanto os outros países investem no mínimo 27% do PIB, o Brasil
investe míseros 19%.
Num país que sofre com problemas de infraestrutura, investimento é
essencial para gerar crescimento sustentável e deveria ser o grande
estímulo do crescimento no Brasil. No longo prazo todos sabemos que
esse investimento expande a oferta e melhora a infraestrutura mas ele
também estimula demanda por produtos e mão de obra no curto prazo.
No entanto, apesar da vontade da presidente Dilma em aumentar o
nível de investimento, o governo claramente não consegue. Apesar de PAC
I, PAC II e incentivos fiscais o governo esbarra na incompetência da
máquina administrativa, na burocracia estatal e na desconfiança dos
empresários e falha ao tentar estimular o investimento. Mesmo com tanta
retórica, o investimento caiu seguidamente em quase todos os
trimestres do atual governo.
As medidas econômicas paliativas nos deixam longe do nosso impávido
colosso e em situação cada vez mais preocupante. De 2007 a 2012, o Peru
cresceu 43%; o Chile, 23%; e a Colômbia, 22%. Enquanto isso, o Brasil
cresceu apenas 20%. Para quem achar que vale uma comparação mais fiel
com países emergentes, nos últimos dez anos, o PIB da China cresceu
170%; o da Índia, 115%; e o do Peru, 88%. No Brasil apenas 43%.
Não bastasse esse baixo crescimento, quando comparamos com os demais
países temos uma inflação muito mais elevada. Enquanto no governo Lula
o Banco Central se concentrava em controlar a inflação, o atual
presidente do BC, Alexandre Tombini, tenta fazer o que o governo não
consegue: fazer o Brasil crescer. Para tal, ignora o seu principal
objetivo, que é fazer a inflação convergir para meta de 4,5%, e se
contenta em não vê-la ultrapassar o teto de 6,5%.
Como resultado temos um BC que também tenta estimular a demanda ao
baixar os juros e deixa a inflação subir para níveis altos e
persistentes, que começam a ficar preocupantes. Assim, além de termos
um crescimento baixo, temos inflação alta, em outras palavras, o pior
dos dois mundos. Aqui vale mais uma comparação com os nossos vizinhos
que crescem mais do que a gente: o Brasil teve uma inflação média de
5,5% de 2007 a 2012, enquanto Colômbia teve de 4,2%, o Chile, de 3,9%; e
o Peru, de apenas 3,4%.
Por que isso vem acontecendo? Porque estamos usando um modelo ultrapassado...
Desde a nova Constituição de 1988, o Brasil adotou um modelo de
crescimento conhecido como os 3 C"s: crédito, consumo e commodities
cujo foco é o incentivo da demanda.
É um fato que esse modelo funcionou parte do tempo, como no caso do
governo Lula, quando havia crédito disponível para oferecer grandes
possibilidades de crescimento num momento em que o preço das
commodities não parava de subir. Também havia um grande contingente de
pessoas desempregadas que quando entraram no mercado de trabalho
passaram a consumir mais e estimularam a economia. Agora, o desemprego
está na mínima histórica e para gerar mais empregos precisamos aumentar
a produtividade do trabalho e não aquecer a demanda.
No entanto, com a crise nos Estados Unidos e na Europa, esses
modelos não são mais suficientes. Não por coincidência, essas medidas
do governo de incentivo à demanda não têm gerado os resultados
esperados.
Não há mais como crescer sem investir. Somente com uma
infraestrutura melhor nossos produtos se tornarão mais baratos. Somente
com impostos menores nossos empreendedores terão incentivos a
investir. Em outras palavras, temos que pensar menos nas próximas
eleições e mais nas próximas gerações. Só então não será mais
necessário criar esses puxadinhos econômicos, pois a questão agora não é
mais a demanda e sim a oferta.
*Samy Dana é professor da escola de economia da FGV-SP - Leonardo de Siqueira Lima é economista pela EESP-FGV - Daniel de Lima é aluno da EESP-FGV
Fonte: Valor Econômico
Enviado por Bosco Souto

















































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