terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Por Auris Martins de Oliveira*


 COERÊNCIA


Derivado do latim coharentia, o termo coerência quer dizer ”ligação, harmonia entre fatos e ideias”, segundo Schwaab. Neste breve texto, temos a intenção de discorrer sobre este esquecido conceito, a coerência. Termo aplicável na política, na economia, na gestão pública, na vida pessoal, e, para não ir muito longe, na igreja também. A seguir privilegiar-se-á um parágrafo breve para cada uma destas aplicabilidades do conceito, num viés, enfoque, ou simples análise conceitual do termo aplicado a estes setores ou segmentos.

Na política a coerência não tem vez. Provavelmente nunca terá. E não tem vez por conta de uma amnésia coletiva do cidadão, mais especificamente falando do contribuinte que paga impostos elevadíssimos e não sabe o quanto paga. Ressalte-se, contribuinte/cidadão que não sabe exercer a plenitude da escolha de seus gestores através do voto. Político coerente, geralmente ou invariavelmente, fica de fora das vagas disponíveis nos cargos eletivos, porque este tema não interessa a maioria dos membros da sociedade brasileira. A troca de favores tida como um toma lá dá cá, não permite a aplicação do conceito de coerência, lógica, congruência, nexo, ou algo procedente. Num momento, ilustrativamente falando, o discurso utilizado pode ser em defesa da classe trabalhadora da educação. Noutra circunstância e em outro cenário essa mesma defesa da educação é dissipada. Cadê a coerência? Para onde foram os princípios norteadores? Para conquistar votos a prioridade é a educação, mas num outro cenário mais favorável após a posse, este discurso desaparece em nome de argumentos frágeis que nunca foram colocados ou previstos; quando as respostas e soluções para todos os anseios da sociedade eram colocados no horário eleitoral “gratuito”. É bom repetir, resposta para todos os anseios da população. A política deve ser considerada/abordada no âmbito teórico, prático, pragmático, enfim.

Já na economia, a lógica da falta de espaço para a coerência também existe. O lucro como meta é a lógica do mercado, de grande parte do empresariado, não de todos. Quem tem como meta o lucro acima de qualquer coisa, comenta como estratégia a compra de maquinário que substituirá uma linha inteira de produção, gerando desemprego em massa. Noutra vertente, alguns empreendedores bem intencionados sofrem pesado nas mãos das exigências da fiscalização trabalhista, pois em alguns casos gerar emprego neste país é uma verdadeira dor de cabeça; o que também é uma incoerência, para não dizer anomalia. Já quanto a lógica do lucro como meta na economia no contexto da visão ecológica, do desenvolvimento sustentável, a coerência passa longe também. Quando considerado o custo da produção limpa ou ecologicamente responsável em certas atividades, o desenvolvimento sustentável é quase uma utopia, com uma incoerência conceitual embutida em si. E veja que o desenvolvimento sustentável é um dos termos mais utilizados, hoje, nos diversos ramos, inclusive nos momentos ou situações em que não cabe. Produzir sem agredir ao meio ambiente custa caro, muito caro, e isto reduz o lucro. Com a pressão da sociedade organizada e da legislação consequentemente, cobrando uma responsabilidade das empresas, agora alguns respeitam o meio ambiente e estão solidários com as questões relacionadas com a responsabilidade social. Mas, lamentavelmente, os derramamentos de óleo no oceano continuam, os agrotóxicos continuam a chegar na nossa mesa, além da sociedade continuar a suportar o ônus dos custos ambientais impagos por parte das corporações poluidoras e exploradoras da produção da mão de obra barata no mundo todo.   

A administração pública, por sua vez, em função de seu ofício opta por investimentos com base nos recursos oriundos do pagamento de tributos. Onde estão sendo aplicados os recursos públicos não é necessariamente a questão crucial, aqui agora. O paciente leitor quando compra um terreno vez ou outra vai ao local para ver se está no lugar, ou se não foi invadido. Perguntamos, o gestor público vai no local averiguar se aquilo que foi investido com o dinheiro da população está transcorrendo conforme o previsto? Existe uma inspeção/auditoria nos gastos públicos? “Não existe país corrupto, existe país pouco auditado”, já dizia o Prof. Stefhen Charles Kanitz (USP). Não existe o menor nexo no fato de um médio supermercado ter um auditor interno para fiscalizar a aplicação dos recursos patrimoniais e, por outro lado, algo grande como o Estado não ter auditores nas escolas que recebem (?!) recursos para a merenda escolar, assim como a saúde não ter auditores in loco nos hospitais, nas análises das documentações de cirurgias, plantões etc. Cadê a coerência na gestão publica? Pergunta-se isto pelo fato de não existir o controle efetivo e eficaz no local das aplicações de recursos na área operacional, ou como se diz no jargão empresarial, no chão da fábrica. Para finalizar este tópico, colocamos que ao ver/ler o noticiário, acreditamos cada vez com maior veemência, existe sim um Brasil pouco auditado. Muito pouco auditado e incoerente na gestão pública.

No cotidiano, devemos fugir de pessoas incoerentes. Não importa quem seja, é incoerente fuja. Essa é a regra.  Essas pessoas incoerentes não nos ajudarão em nada, a não ser que essa ajuda lhe renda algo. Estão conosco até o momento em que for lucrativa a nossa proximidade. Na vida pessoal devemos fugir de pessoas incoerentes. Que seja um “Adolf Hitler”, mas coerente com seus princípios de assassino. Pelo menos assim, saberemos como nos defender de um assassino doente ou sociopata. Se alguém que está ao seu lado neste instante de leitura deste artigo for incoerente tenha cuidado, você está em perigo. E digo mais, caso você adote uma completa incoerência nas negativas de aproximação, o(a) pseudo(a) amigo(a) incoerente, não tenha dúvidas, já saberá que você percebeu que ele(a) é incoerente e, portanto, perigoso(a) para sua dominação.  Aqui vale a velha máxima adaptada do “antes só do que mal acompanhado”, para “antes só do que mal acompanhado com alguém incoerente (grifo nosso)”.

Em algumas igrejas é lamentável dizer, por fim, impera também a incoerência. Temos alguns jovens cantores orgulhosos sem vocação nenhuma para o evangelismo, pseudos servos da igreja, casal de pastores presos nos EUA com dólares adquiridos com doações coerentes de fiéis (não declaradas?!), ostentação de templos e patrimônios milionários etc. Não parece mesmo que estamos falando da mesma Pessoa, do mesmo cenário de um Cristo humilde que nasceu numa manjedoura. Um Jesus que professava a necessidade da adoção da caridade e o desapego aos bens ou coisas materiais. Os templos que mais servem de ponto turístico de ostentação do poder financeiro do que de adoração a Deus, e os patrimônios adquiridos sem prestação de contas pelas igrejas “isentas” de auditoria, mostram que a incoerência impera também neste segmento. Impera e não fica devendo em nada aos setores descritos acima. As igrejas (e quem faz as igrejas são os fiéis) deveriam também ser auditadas, mesmo que de forma voluntária, para demonstrar coerência. Pregue a igreja, professe sua doutrina, mas pratique a coerência e a caridade no uso de seus recursos que sustentam todo o seu sistema. Ocorrendo isto, até este que conclui estas palavras será o primeiro a nascer de novo, pois ao passar na frente de certos templos voluptuosos saberei que não se abriu mão da auditoria. Não se abriu mão da coerência, portanto, e a accountability (transparência) foi adotada. Transparência só no discurso para os outros não conta. Tem que ter coerência, discurso para os outros e para si mesmo.

Somos programados psiquicamente para não sermos revolucionários. Digamos que somos filhos da opressão da ditadura militar no Brasil, passivos mesmo diante da total e gritante falta de coerência ao nosso redor. Já repararam como o brasileiro é passivo? Viram o que acontece nos países da Comunidade Europeia contra as medidas de austeridade dos governos determinadas pelo FMI? Frise-se, governos agora nas mãos de um sistema que no passado éramos nós brasileiros escravos. No Brasil já vimos este filme, mas revoltas como as observadas na Comunidade Europeia nós não tínhamos. Mas, queremos crer que uma revolução silenciosa (e pacífica) está em gestação, contra a falta de coerência nos discursos e, sobretudo, ações no nosso ambiente, no trabalho, na nossa cidade, nosso Estado, neste Brasil. Uma revolução na consciência daqueles que sabem fazer uma leitura cultural e socioeconômica de seu entorno em busca da coerência, do resgate da coerência. Não vamos mais rir das piadas de políticos corruptos ou de anedotas no horário nobre na TV adentrando nas nossas famílias. Perderemos, sim, certos amigos quando defendermos a coerência. Mas, vamos ganhar a liberdade no agir, no pensar, no trabalhar, no gerir, no fazer cultura, conhecimento & ciência para todos.

*Auris Martins de Oliveira é professor Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN. 

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