COERÊNCIA
Derivado
do latim coharentia, o termo coerência quer dizer ”ligação, harmonia
entre fatos e ideias”, segundo Schwaab. Neste breve texto, temos a
intenção de discorrer sobre este esquecido conceito, a coerência. Termo
aplicável na política, na economia, na gestão pública, na vida pessoal,
e, para não ir muito longe, na igreja também. A seguir privilegiar-se-á
um parágrafo breve para cada uma destas aplicabilidades do conceito, num
viés, enfoque, ou simples análise conceitual do termo aplicado a estes
setores ou segmentos.
Na política a coerência não tem vez.
Provavelmente nunca terá. E não tem vez por conta de uma amnésia
coletiva do cidadão, mais especificamente falando do contribuinte que
paga impostos elevadíssimos e não sabe o quanto paga. Ressalte-se,
contribuinte/cidadão que não sabe exercer a plenitude da escolha de seus
gestores através do voto. Político coerente, geralmente ou
invariavelmente, fica de fora das vagas disponíveis nos cargos eletivos,
porque este tema não interessa a maioria dos membros da sociedade
brasileira. A troca de favores tida como um toma lá dá cá, não permite a
aplicação do conceito de coerência, lógica, congruência, nexo, ou algo
procedente. Num momento, ilustrativamente falando, o discurso utilizado
pode ser em defesa da classe trabalhadora da educação. Noutra
circunstância e em outro cenário essa mesma defesa da educação é
dissipada. Cadê a coerência? Para onde foram os princípios norteadores?
Para conquistar votos a prioridade é a educação, mas num outro cenário
mais favorável após a posse, este discurso desaparece em nome de
argumentos frágeis que nunca foram colocados ou previstos; quando as
respostas e soluções para todos os anseios da sociedade eram colocados
no horário eleitoral “gratuito”. É bom repetir, resposta para todos os
anseios da população. A política deve ser considerada/abordada no âmbito
teórico, prático, pragmático, enfim.
Já na economia, a lógica da
falta de espaço para a coerência também existe. O lucro como meta é a
lógica do mercado, de grande parte do empresariado, não de todos. Quem
tem como meta o lucro acima de qualquer coisa, comenta como estratégia a
compra de maquinário que substituirá uma linha inteira de produção,
gerando desemprego em massa. Noutra vertente, alguns empreendedores bem
intencionados sofrem pesado nas mãos das exigências da fiscalização
trabalhista, pois em alguns casos gerar emprego neste país é uma
verdadeira dor de cabeça; o que também é uma incoerência, para não dizer
anomalia. Já quanto a lógica do lucro como meta na economia no contexto
da visão ecológica, do desenvolvimento sustentável, a coerência passa
longe também. Quando considerado o custo da produção limpa ou
ecologicamente responsável em certas atividades, o desenvolvimento
sustentável é quase uma utopia, com uma incoerência conceitual embutida
em si. E veja que o desenvolvimento sustentável é um dos termos mais
utilizados, hoje, nos diversos ramos, inclusive nos momentos ou
situações em que não cabe. Produzir sem agredir ao meio ambiente custa
caro, muito caro, e isto reduz o lucro. Com a pressão da sociedade
organizada e da legislação consequentemente, cobrando uma
responsabilidade das empresas, agora alguns respeitam o meio ambiente e
estão solidários com as questões relacionadas com a responsabilidade
social. Mas, lamentavelmente, os derramamentos de óleo no oceano
continuam, os agrotóxicos continuam a chegar na nossa mesa, além da
sociedade continuar a suportar o ônus dos custos ambientais impagos por
parte das corporações poluidoras e exploradoras da produção da mão de
obra barata no mundo todo.
A administração pública, por sua
vez, em função de seu ofício opta por investimentos com base nos
recursos oriundos do pagamento de tributos. Onde estão sendo aplicados
os recursos públicos não é necessariamente a questão crucial, aqui
agora. O paciente leitor quando compra um terreno vez ou outra vai ao
local para ver se está no lugar, ou se não foi invadido. Perguntamos, o
gestor público vai no local averiguar se aquilo que foi investido com o
dinheiro da população está transcorrendo conforme o previsto? Existe uma
inspeção/auditoria nos gastos públicos? “Não existe país corrupto,
existe país pouco auditado”, já dizia o Prof. Stefhen Charles Kanitz
(USP). Não existe o menor nexo no fato de um médio supermercado ter um
auditor interno para fiscalizar a aplicação dos recursos patrimoniais e,
por outro lado, algo grande como o Estado não ter auditores nas escolas
que recebem (?!) recursos para a merenda escolar, assim como a saúde
não ter auditores in loco nos hospitais, nas análises das documentações
de cirurgias, plantões etc. Cadê a coerência na gestão publica?
Pergunta-se isto pelo fato de não existir o controle efetivo e eficaz no
local das aplicações de recursos na área operacional, ou como se diz no
jargão empresarial, no chão da fábrica. Para finalizar este tópico,
colocamos que ao ver/ler o noticiário, acreditamos cada vez com maior
veemência, existe sim um Brasil pouco auditado. Muito pouco auditado e
incoerente na gestão pública.
No cotidiano, devemos fugir de
pessoas incoerentes. Não importa quem seja, é incoerente fuja. Essa é a
regra. Essas pessoas incoerentes não nos ajudarão em nada, a não ser
que essa ajuda lhe renda algo. Estão conosco até o momento em que for
lucrativa a nossa proximidade. Na vida pessoal devemos fugir de pessoas
incoerentes. Que seja um “Adolf Hitler”, mas coerente com seus
princípios de assassino. Pelo menos assim, saberemos como nos defender
de um assassino doente ou sociopata. Se alguém que está ao seu lado
neste instante de leitura deste artigo for incoerente tenha cuidado,
você está em perigo. E digo mais, caso você adote uma completa
incoerência nas negativas de aproximação, o(a) pseudo(a) amigo(a)
incoerente, não tenha dúvidas, já saberá que você percebeu que ele(a) é
incoerente e, portanto, perigoso(a) para sua dominação. Aqui vale a
velha máxima adaptada do “antes só do que mal acompanhado”, para “antes
só do que mal acompanhado com alguém incoerente (grifo nosso)”.
Em
algumas igrejas é lamentável dizer, por fim, impera também a
incoerência. Temos alguns jovens cantores orgulhosos sem vocação nenhuma
para o evangelismo, pseudos servos da igreja, casal de pastores presos
nos EUA com dólares adquiridos com doações coerentes de fiéis (não
declaradas?!), ostentação de templos e patrimônios milionários etc. Não
parece mesmo que estamos falando da mesma Pessoa, do mesmo cenário de um
Cristo humilde que nasceu numa manjedoura. Um Jesus que professava a
necessidade da adoção da caridade e o desapego aos bens ou coisas
materiais. Os templos que mais servem de ponto turístico de ostentação
do poder financeiro do que de adoração a Deus, e os patrimônios
adquiridos sem prestação de contas pelas igrejas “isentas” de auditoria,
mostram que a incoerência impera também neste segmento. Impera e não
fica devendo em nada aos setores descritos acima. As igrejas (e quem faz
as igrejas são os fiéis) deveriam também ser auditadas, mesmo que de
forma voluntária, para demonstrar coerência. Pregue a igreja, professe
sua doutrina, mas pratique a coerência e a caridade no uso de seus
recursos que sustentam todo o seu sistema. Ocorrendo isto, até este que
conclui estas palavras será o primeiro a nascer de novo, pois ao passar
na frente de certos templos voluptuosos saberei que não se abriu mão da
auditoria. Não se abriu mão da coerência, portanto, e a accountability
(transparência) foi adotada. Transparência só no discurso para os outros
não conta. Tem que ter coerência, discurso para os outros e para si
mesmo.
Somos programados psiquicamente para não sermos
revolucionários. Digamos que somos filhos da opressão da ditadura
militar no Brasil, passivos mesmo diante da total e gritante falta de
coerência ao nosso redor. Já repararam como o brasileiro é passivo?
Viram o que acontece nos países da Comunidade Europeia contra as medidas
de austeridade dos governos determinadas pelo FMI? Frise-se, governos
agora nas mãos de um sistema que no passado éramos nós brasileiros
escravos. No Brasil já vimos este filme, mas revoltas como as observadas
na Comunidade Europeia nós não tínhamos. Mas, queremos crer que uma
revolução silenciosa (e pacífica) está em gestação, contra a falta de
coerência nos discursos e, sobretudo, ações no nosso ambiente, no
trabalho, na nossa cidade, nosso Estado, neste Brasil. Uma revolução na
consciência daqueles que sabem fazer uma leitura cultural e
socioeconômica de seu entorno em busca da coerência, do resgate da
coerência. Não vamos mais rir das piadas de políticos corruptos ou de
anedotas no horário nobre na TV adentrando nas nossas famílias.
Perderemos, sim, certos amigos quando defendermos a coerência. Mas,
vamos ganhar a liberdade no agir, no pensar, no trabalhar, no gerir, no
fazer cultura, conhecimento & ciência para todos.
*Auris Martins de Oliveira é professor Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN.

















































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