O SEMINÁRIO BRASILEIRO E
A "INDÚSTRIA DA SECA"
Quando das grandes secas que,
invariavelmente, durante períodos intercalados, assolam o semiárido brasileiro
tornou-se praxe que parlamentares da região castigada pelas estiagens profiram discursos
carregados de emoção denunciando a situação de penúria pela qual estão
acometidas as populações interioranas subjugadas aos flagelos mais
inenarráveis.
Geralmente pintam com cores
Dantescas situações periclitantes nas quais imperam a fome de forma
avassaladora e impiedosa, causando comoção nacional diante de uma conjuntura
que grande parte acredita realmente ser fruto da forma inevitável apresentada de
tempos e tempos pelas características do quadro natural da região semiárida
brasileira.
Essa tendência não é recente,
pois no Império foram profícuas as declarações de parlamentares das então
denominadas Províncias do Norte sobre o sofrimento de uma gente que habita a
territorialidade das secas no Brasil.
Inúmeros interesses
particulares sempre se ocultaram sobre o disfarce “humanista” dos representantes
da elite dirigente, pois beneficiar-se e privilegiar a classe da qual provém assinalam
os reais motivos que movem os “donos do poder” quando da elaboração dos seus discursos
inflamados, pretensamente proferidos em prol de um povo sofrido duplamente com
as secas e com a usurpação dos recursos destinados ao combate às secas.
Partindo do plano político
para o social, implanta-se de forma ignominiosa toda infraestrutura que
alicerça a “indústria das secas” no semiárido brasileiro.
Quando o “Coronelismo” imperava
a situação era extremamente mais grave no que diz respeito aos desvios de
verbas destinadas à melhoria da qualidade de vida dos deserdados filhos das
secas.
A centralização
político-administrativa que vai gradativamente caracterizando a era Vargas
serviu para inibir, mas não para desestruturar uma das formas mais desumanas de
reprodução de uma situação artificializada a fim de garantir a manutenção das
estruturas de poder.
No século XIX eram tão
lastimáveis as práticas que garantiam o sucesso da “indústria das secas” que
bandoleiro das caatingas conhecido por Jesuíno Brilhante se insurgiu contra a
sistemática adotada pelos situacionistas a fim de implementar a distribuição
dos víveres enviados pelo governo imperial visando minimizar nas populações
afligidas os terríveis efeitos biológicos trazidos com a grande seca de
1877-1879.
Com a criação de órgãos
federais como o DNOCS e a SUDENE intensificaram-se o teor dos discursos políticos,
os quais usaram a seca como argumento para a necessidade da construção de
açudes na região, sendo que diversos, graças ao prestígio desfrutado pela elite
privilegiada, foram enriquecer o patrimônio particular de muitos fazendeiros da
região.
A idéia do governo JK de criar
as frentes de emergência revelou compromisso com a “indústria das secas”, pois
novamente observava-se a mesma irresponsabilidade atentando contra a dignidade
de um povo forte.
Luiz Gonzaga e Zé Dantas
escandalizaram a política de alianças que embasa a ausência de produção de bens
e serviços a partir do funcionamento da “indústria das secas”, tendo denunciado
a farsa amoral instituída de forma cínica e descarada, enfatizando em “Vozes
das Secas” que uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia
o cidadão.
Toda vez que a irregularidade
pluviométrica começa a se concretizar na porção semiárida brasileira, retornam-se
os velhos hábitos de buscar a todo custo se beneficiar com a desgraça
ocasionada com as secas nas populações marginalizadas que desafiam com heroísmo
as intempéries causticantes, cujas esperanças de melhores dias ainda parecem
uma incógnita a desafiar todas as leis de sobrevivência impostas a fim de
garantir a manutenção do status quo na região.
* José Romero Araújo
Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto da UERN.

















































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