MAGISTRADOS EMITEM REPÚDIO
A JOAQUIM BARBOSA
Presidentes da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), da
Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e da Associação
Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), emitiram
nota conjunta em que repudiam as declarações do presidente do Superior
Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, dadas durante entrevista
coletiva na última quinta-feira (28), sobre a continuidade do processo
da Ação Penal 470, sobre o caso mensalão – leia matéria indicada no
quadro ao lado.
Os magistrados se dizem "perplexos" com a forma "preconceituosa",
"superficial" e "desrespeitosa" com que Barbosa se refere a integrantes
do Poder Judiciário e que o ministro como "dono da verdade".
Na nota, as entidades reafirmam a necessidade de se garantir um
julgamento penal justo em qualquer processo judicial, dentro de uma
democracia plena e imparcial. Os juízes encerram seu protesto de forma
incisiva, dizendo esperar "do ministro Joaquim Barbosa comportamento
compatível com o alto cargo que ocupa, bem como tratamento respeitoso
aos magistrados brasileiros, qualquer que seja o grau de jurisdição."
Leia a íntegra da nota das entidades que representam os magistrados brasileiros:
A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), a Associação dos
Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e a Associação Nacional dos
Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), entidades de classe de
âmbito nacional da magistratura, a propósito de declarações do
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) em entrevista a jornalistas
estrangeiros, na qual Sua Excelência faz ilações sobre a mentalidade
dos magistrados brasileiros, vêm a público manifestar-se nos seguintes
termos:
1. Causa perplexidade aos juízes brasileiros a forma preconceituosa,
generalista, superficial e, sobretudo, desrespeitosa com que o ministro
Joaquim Barbosa enxerga os membros do Poder Judiciário brasileiro.
2. Partindo de percepções preconcebidas, o ministro Joaquim Barbosa
chega a conclusões que não se coadunam com a realidade vivida por
milhares de magistrados brasileiros, especialmente aqueles que têm
competência em matéria penal.
3. A comparação entre as carreiras da magistratura e do Ministério
Público, no que toca à “mentalidade”, é absolutamente incabível,
considerando-se que o Ministério Público é parte no processo penal,
encarregado da acusação, enquanto a magistratura – que não tem
compromisso com a acusação nem com a defesa – tem a missão
constitucional de ser imparcial, garantindo o processo penal justo.
4. A garantia do processo penal justo, pressuposto da atuação do
magistrado na seara penal, é fundamental para a democracia, estando
intimamente ligada à independência judicial, que o ministro Joaquim
Barbosa, como presidente do STF, deveria defender.
5. Se há impunidade no Brasil, isso decorre de causas mais complexas
que a reducionista ideia de um problema de “mentalidade” dos
magistrados. As distorções – que precisam ser corrigidas – decorrem,
dentre outras coisas, da ausência de estrutura adequada dos órgãos de
investigação policial; de uma legislação processual penal desatualizada,
que permite inúmeras possibilidades de recursos e impugnações, sem se
falar no sistema prisional, que é inadequado para as necessidades do
país.
6. As entidades de classe da magistratura, lamentavelmente, não têm
sido ouvidas pelo presidente do STF. O seu isolacionismo, a parecer que
parte do pressuposto de ser o único detentor da verdade e do
conhecimento, denota prescindir do auxílio e da experiência de quem
vivencia as angústias e as vicissitudes dos aplicadores do direito no
Brasil.
7. A independência funcional da magistratura é corolário do Estado
Democrático de Direito, cabendo aos juízes, por imperativo
constitucional, motivar suas decisões de acordo com a convicção
livremente formada a partir das provas regularmente produzidas. Por
isso, não cabe a nenhum órgão administrativo, muito menos ao Conselho
Nacional de Justiça (CNJ), a função de tutelar ou corrigir o pensamento e
a convicção dos magistrados brasileiros.
8. A violência simbólica das palavras do ministro Joaquim Barbosa
acende o aviso de alerta contra eventuais tentativas de se diminuírem a
liberdade e a independência da magistratura brasileira. A sociedade não
pode aceitar isso. Violar a independência da magistratura é violar a
democracia.
9. As entidades de classe não compactuam com o desvio de finalidade
na condução de processos judiciais e são favoráveis à punição dos
comportamentos ilícitos, quando devidamente provados dentro do devido
processo legal, com garantia do contraditório e da ampla defesa.
Todavia, não admitem que sejam lançadas dúvidas genéricas sobre a lisura
e a integridade dos magistrados brasileiros.
10. A Ajufe, a AMB e a Anamatra esperam do ministro Joaquim Barbosa
comportamento compatível com o alto cargo que ocupa, bem como tratamento
respeitoso aos magistrados brasileiros, qualquer que seja o grau de
jurisdição.
Brasília, 2 de março de 2013.
Nelson Calandrasant'Anna - Presidente da AMB
Nino Oliveira Toldo - Presidente da Ajufe
Renato Henry - Presidente da Anamatra
Fonte: Rede Brasil Atual

















































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