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domingo, 19 de abril de 2015

 ENTREVISTA DE SANDRA ROSADO


A ex-deputada federal, Sandra Rosado (PSD), concedeu sua primeira entrevista, depois das eleições de 2014, quando não se reelegeu, ao Jornal Difusora, da rádio Difusora de Mossoró, na quarta-feira, 16, às 18. Na conversa com o apresentador do Jornal Difusora, Carlos Skarlack e com o diretor geral da emissora, jurista Paulo Afonso Linhares e com o publicitário e blogueiro, Paulo César Oliveira, Sandra Rosado falou sobre passado, presente e futuro político.

 Confira, a seguir, alguns dos trechos da entrevista:

Jornal Difusora – Ex-deputada federal, Sandra Rosado, a senhora foi sondada para assumir algum cargo de assessoria, em Brasília? 

Sandra Rosado – Eu só volto para Brasília se o povo de Mossoró me mandar. Agora, voltei para a minha cidade. Eu precisava ficar um pouco mais perto de minha família; de minha mãe que vai completar 80 anos. Mas, realmente, houve conversas nesse sentido, mas eu tomei a decisão de voltar para minha cidade, onde meu trabalho independe de ocupar cargo político.

Jornal Difusora – A Senhora continua no PSB?

Sandra Rosado – Eu continuo no PSB. É um partido que sofreu um grande baque com a morte de Eduardo Campos, mas ficamos com esse legado de trabalhar por um país mais justo, onde sejam respeitados os direitos dos pobres. Um país que ainda precisa que aconteça um governo em que as pessoas mais necessitadas sejam respeitadas.


Jornal Difusora – Diante dos últimos resultados adversos, a senhora pensa em abandonar a política?

Sandra Rosado – Eu, desde que saiu o resultado das últimas eleições de 2014, afirmei e quero reafirmar aqui, que não deixo a política, não. Para mim a política é algo inerente, é minha grande paixão. Eu faço política como um sacerdócio, com devotamento. Estou preparada, sempre estive preparada para a vida pública, e sei que a vida pública não é feita só de sucessos. Existem momentos de amargura. Na política o único momento de alegria é quando você obtém uma vitória, pois, no cumprimento do mandato existe sempre muito trabalho, muita luta para realizar os compromissos assumidos com o povo.

Jornal Difusora – Como a senhora encara a derrota de 2014?

Sandra Rosado – Quando se ganha uma eleição, então, se tem muito trabalho pela frente. Mas, é sempre bom vencer. Mas, no Rio Grande do Norte não tem um político que não tenha tido uma derrota. Todos já sofreram derrotas, mas, depois, voltaram a vencer.

Jornal Difusora – Como a senhora avalia o atual cenário político do município de Mossoró?

Sandra Rosado – Mossoró vem vivendo momentos de muita instabilidade. Um componente de pessoas que chegaram a Prefeitura Municipal e não corresponderam aos anseios populares. Em 2012, a política mossoroense foi maculada por atos de improbidade por parte de quem ganhou as eleições (Cláudia Regina e seu grupo político). Depois, houve a posse na Prefeitura Municipal, de um presidente da Câmara Municipal (Francisco José Júnior) e depois uma eleição suplementar.

Jornal Difusora – Mas, o então presidente da Câmara Municipal, Francisco José Júnior assumiu a Prefeitura de Mossoró em cumprimento ao que determina a legislação, depois da cassação da prefeita que fora eleita, Cláudia Regina…


Sandra Rosado – Ele assumiu a Prefeitura Municipal e disputou um pleito em que enfrentamos o juiz eleitoral (Herval Sampaio), que ia para o rádio ou para a televisão e dizia que Larissa (Rosado), era candidata, mas, que ele não iria computar os votos dela. Então o eleitor chegou a conclusão que não iria valer a pena, e acabou votando no adversário.

Jornal Difusora – Mas, esta não foi apenas mais uma derrota de seu grupo político…

Sandra Rosado – Tivemos insucesso nessa eleição suplementar, quando o próprio juiz (Herval Sampaio), todo dia declarava que Larissa era candidata por conta e risco. Em ação que foi colocada pelo presidente da Câmara Municipal (Francisco José Júnior) e que naquela hora era ocupante do Palácio da Resistência e ele era candidato a reeleição. A reeleição, aliás, é uma norma, uma regra que tem que ser muito bem avaliada, pois, normalmente, quem está no comando usa e abusa do poder.

Jornal Difusora – Como a senhora avalia a gestão do prefeito Francisco José Júnior?

Sandra Rosado – Agora mesmo, um grupo de Natal, que inclusive tem ligações com o governador do Estado, Robinson Faria, publicou uma pesquisa que foi colocada por um blog de um dos assessores do governador, e apresenta um resultado de agora, em que o prefeito da cidade de Mossoró tem uma rejeição de quase 80%. A cidade de Mossoró, se formos analisar, é uma cidade que tem muitas riquezas naturais, mas que o seu povo está mais pobre agora do que era antes. O poder público está se preocupando apenas com um aspecto personalista. Temos uma grave crise na cidade, com as ruas esburacadas; falta de médicos e medicamentos nas unidades de saúde, com aumento da insegurança e tudo isso sem nenhuma perspectiva de solução por parte da gestão municipal. Temos quase todo dia um jovem assassinado. Pode se dizer que isso não é responsabilidade da Prefeitura, mas, tem que se ter responsabilidade com essa situação. Mossoró está vivendo uma época em que se fala que pagar em dia ao servidor público é um ato histórico, quando isso é apenas uma dever do governante. A população etá cançada. Precisamos de alguém que pense grande, do tamanho de Mossoró.

Jornal Difusora – Como o grupo político liderado pela senhora deverá se posicionar paras eleições de 2016?

Sandra Rosado – Eu, primeiro vou lhe dizer que, estamos começando um debate sobre a campanha que se avizinha. Mas, quero dizer que tanto eu quanto a deputada Larissa Rosado, vamos participar da disputa. Ela também sabe, e conscientemente afirmou, que não deixa a política. Poderemos servir a Mossoró de várias formas. Não vou dizer que nosso grupo que tem representação expressiva, pelo trabalho no dia a dia, onde sempre tivemos envolvidos, não vamos participar do pleito. Estamos preparados para aprticipar a campanha municipal.
Podemos fazer composição com outros grupos políticos de Mossoró. Temos o vereador Lairinho (Rosado), mas, podemos participar da disputa. eu e Larissa poderemos disputar um mandato de vereador.

Jornal Difusora – A ex-deputada estadual Larissa Rosado teve um encontro, em Natal, com o ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado…

Sandra Rosado – Eu converso de vez em quando com Carlos Augusto (marido da ex-governador Rosalba Ciarlini), sobre coisas de Mossoró e do Rio Grande do Norte. Mas, esse encontro foi meramente casual. Larissa estava esperando uma filha e uma sobrinha que estudam em Natal; estava aguardando, e Carlos Augusto Rosado chegou, e quem é da política fala sempre de política. Hoje todas as pessoas conversam com todas os outras. Agora mesmo, os senadores Garibaldi Filho e José Agripino, procuraram o governador Robinson Faria, para apoiar os projetos que forem de interesse do Estado. Se tiver que me encontrar com Rosalba (Ciarlini) vou conversar sobre política.

Jornal Difusora - E com está a relação com o PMDB?
Sandra Rosado – Não há nada que impeça uma aliança nossa com o PMDB.

Jornal Difusora – Como a senhora avalia a situação do PSB, no momento?

Sandra Rosado – O PSB está precisando de uma abertura maior. Tivemos decisão em nível nacional, para se fazer novas eleições nos Estados onde os diretórios do PSB não tiveram 5% dos votos para deputado federal. Fui convocada (na quarta-feira, 16) para uma reunião do diretório nacional, mas não pude ir. Mas, tenho conversado com Carlos Siqueira. Estamos conversando sobre o comando do PSB, mas não temos ainda unificado um pensamento sobre as eleições estaduais. Mas para as eleições municipais vamos seguir a orientação de alianças com os partidos de esquerda.

Jornal Difusora – Durante as eleições de 2014, na disputa para o Governo do Estado, o seu grupo política contava com a possibilidade de vitória de Robinson Faria?

Sandra Rosado – Olhe, eu acho que nem o próprio Robinson Faria acreditava nisso. Tanto que estamos vendo os cem primeiros dias de gestão sem grande projetos.

Jornal Difusora – As lideranças de oposição poderão se unirem em torno do governo Robinson Faria?

Sandra Rosado – Não será muito fácil a junção dessas lideranças em torno do governador Robinson. Eu acredito que está faltando uma sustentação política mais forte para o governador Robinson.

Jornal Difusora – Como a senhora avalia a união de forças que ocorreu em torno do então candidato ao Governo, Henrique Alves?

Sandra Rosado – Quando se juntam duas forças que são adversárias nos municipios, não é bom, pois o povo não gosta. A polarização municipal fala mais alto. Eu mesma falei isso para Henrique Alves durante a campanha eleitoral.

Jornal Difusora – O município de Mossoró, pelos problemas que enfrenta, não estaria precisando de uma junção de forças para se pensar o soerguimento econômico?

Sandra Rosado – Essa questão me faz lembrar uma figura expressiva, que o saudoso empresário, Diran Ramos do Amaral. E ele fez um movimento para recuperar a BR-304, e conseguiu. Na paz que eu vivo, hoje, lamento a paciência, a falta de indignação pública, as pessoas não expressando isso. Acho que sua ideia é muita boa. Não podemos dizer que Mossoró está bem, que o Rio Grande do Norte está bem, que não está. Precisamos fazer com que Mossoró seja participativa.

Fonte: Blog de Carlos Skarlack
Por Paulo Afonso Linhares e Paulo César Oliveira 
Foto de Carla Viegas


quarta-feira, 11 de março de 2015

O PT AINDA NÃO 

ENTENDEU O "ANTIPETISMO"?


Dez anos depois de ter seus principais líderes envolvidos no “mensalão”, o Partido dos Trabalhadores vê mais dirigentes serem diretamente acusados na Operação Lava Jato. Apesar de a polêmica desgastar ainda mais a imagem do partido, para Lincoln Secco, professor de História da Universidade de São Paulo e autor do livro A história do PT, o grande problema do partido é a base cada vez maior do antipetismo, crescente principalmente entre as classes médias. “[Esse sentimento está] traduzido pelo discurso anticorrupção, ‘antiaparelhismo’ do Estado, por mais que sejam noções que se aplicam também a governo anteriores. Mas não basta o PT dizer isso porque o partido já está no poder há 13 anos”.

Em entrevista a CartaCapital, Secco explica como o modelo de gestão petista, baseado no pacto de conciliação de classes, “deixou uma margem de manobra crítica para os setores médios”. “O erro do PT é esse. O partido jamais quis acirrar a luta de classes, mas o modelo de governo que ele constituiu, que elevou uma parte das classes pobres socialmente, acirraria inevitavelmente a luta de classes”.


 Leia a entrevista na íntegra abaixo:
 

CartaCapital: O governo Dilma foi alvo no último fim de semana de um 'panelaço' em bairros ricos e de classe média alta. Em resposta, o partido divulgou nota sobre o que chamou de “ato orquestrado pela burguesia”. Como o senhor o senhor enxerga esse processo pelo qual o PT passa em seu quarto mandato presidencial? Acha que o partido está em negação dos fatos? 

Lincoln Secco: Em primeiro lugar não é uma ação orquestrada da grande burguesia porque nós temos visto indícios, até mesmo na grande imprensa, de que não há uma preferência dos estratos sociais mais ricos pelo impeachment. Obviamente que existem pequenos grupos que organizam manifestações. O que o PT talvez não tenha entendido é que existe um sentimento difuso na sociedade desde 2005 [época do “mensalão”] que é o antipetismo, traduzido pelo discurso anticorrupção, ‘antiaparelhismo’ do Estado, por mais que sejam noções que se aplicam também a governo anteriores. Mas não basta o PT dizer isso porque o partido já está no poder há 13 anos.

CC: Há ainda justificativa para falar de ‘burguesia’ depois de uma eleição tão polarizada? O senhor não acha que o PT não percebeu ainda que perdeu uma parte de seu eleitorado? 

LS: O modelo de governo do PT está calcado em uma conciliação de classes, especialmente entre os muito ricos e os muito pobres. Isso deixou uma margem de manobra crítica, enorme, para os setores médios, que não ganharam nada nos governos Lula e Dilma. E é esperado que pessoas que emergiram das classes mais pobres para aquilo que o próprio Lula chamou de “nova classe média” acabe incorporando os valores da classe média tradicional. Isso forma uma base cada vez maior para o antipetismo. Nas últimas eleições, esse estrato social, que eu prefiro chamar de nova classe trabalhadora, se dividiu. Uma parte ficou fiel ao projeto do PT e outra parte migrou para o PSDB.

CC: O PT parece não saber como responder a tudo isso. Como o senhor avalia a postura do partido neste tipo de situação, do ponto de vista do diálogo com a sociedade? Historicamente, o partido sempre teve problema na comunicação? 

LS: O PT sempre teve, na verdade, uma dificuldade de acesso à grande imprensa. Quem forma a imagem do PT não é ele, são os meios de comunicação de massa, que têm uma predisposição de crítica maior em relação ao PT. Ficou demostrado já [a postura da mídia] em pesquisas tanto no período em que o PT fazia oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso como no período em que se tornou governo. Mas historicamente o PT nunca se interessou nem em informar sua militância e nem em constituir um aparato de imprensa, uma necessidade histórica do partido.

CC: O 'panelaço' surgiu também em meio à divulgação da lista da Operação Lava Jato. De novo o PT está envolvido em um grande escândalo de corrupção. Como o senhor analisa esse novo episódio na história do partido?
 

LS: Em primeiro lugar, a lista do Janot não citou nenhum grande nome do PT. Com exceção do Antonio Palocci, que é um nome histórico, mas que já estava inativo politicamente. Então na verdade o potencial destrutivo das acusações atuais sobre o PT é bem menor que em 2005. Acontece que, em 2005, o Lula estava em final de mandato. Então a oposição esperava que sangrando o Lula até as eleições seria suficiente para retirá-lo do poder. Agora a Dilma está no início de mandato. Isso significa que ela vai ter um governo de crise nessas acusações durante quatro anos. Isso que é terrível para o partido.

CC: Vai ter que resistir ao sangramento por muito mais tempo... 

LS: E as lideranças de 2005 eram lideranças de primeiro time do PT. Dois ex-presidentes do partido foram para a cadeia. Acredito que não haja paralelo em nenhum partido socialdemocrata do mundo. E também um ex-presidente da Câmara dos Deputados. Pelo menos até agora não é a mesma coisa.

CC: Como biógrafo do PT, qual análise o senhor faz individualmente dos nomes do partido envolvidos na Lava Jato?
 

LS: O Palocci já havia passado por um transformismo ideológico no início dos anos 1990. Quando foi prefeito de Ribeirão Preto (SP), ele defendeu privatizações, escandalizou o partido num momento em que o PT era mais radical. Teve uma trajetória sempre envolta em mistérios, para usar um eufemismo. Mas o [senador] Lindberg [Farias] é um quadro neopetista errático. Saiu do PCdoB, se dirigiu ao trotskismo, e então se aproximou do PT. Ele não é um quadro histórico do partido. Tanto a [senadora] Gleisi Hoffman [PT-PR] como Humberto Costa [PT-PE] são quadros até que históricos, mas regionais. A Gleisi foi ministra da Casa Civil, mas não tem a importância que aqueles quadros do PT que caíram em 2005 tiveram. É por isso que acho que o problema do PT não está na lista. O problema está nesse sentimento negativo até para a democracia, que está se apossando de parte da sociedade, de que é preciso retirar a presidenta através da força ou impeachment. Quando a gente sabe que não existe nenhuma razão para impeachment no Brasil. Esse é um sentimento difuso.

CC: Sobre o escândalo, parece que toda a raiz é o financiamento privado de campanha, um dos temas mais importantes da reforma política. Como o senhor enxerga o fato dessa bandeira não ter sido prioridade para o PT durante muitos anos e agora explicar a participação do partido no escândalo?
 

LS: Depois de junho de 2013, o PT se voltou novamente para a defesa da reforma política. A própria presidenta lançou uma proposta, que foi sabotada por pessoas de seu próprio partido na época. E há setores minoritários do PT que fizeram no ano passado uma campanha de marcha pela reforma política. Mas a direção do PT sempre fica em compasso de espera: apoia timidamente e espera a reação da sociedade. Eu acho que o escândalo atual teria como uma saída, por parte do PT, a defesa radical agora do financiamento público de campanha porque o escândalo está especialmente ligado a isso. Está especialmente ligado ao financiamento privado de campanha, mas não há clima no Congresso para uma reforma política desse tipo. É mais fácil acontecer uma contrarreforma.

CC: Como essa que o Eduardo Cunha (PMDB) tem tentado emplacar... 

LS: Isso mostra que, na verdade, os escândalos se sucedem, obviamente com um ilícito real no fundo, mas só adquirem expressão pública porque são usados como arma política. No caso, contra o PT. Não quer dizer que não haja ilícito, mas acontece que isso reduz o debate político a um nível mais baixo. Quer dizer, nós não estamos mais debatendo se o projeto social-rentista do governo Lula era correto ou não. Se o PSDB tinha alternativas. Se os dois partidos são parecidos ou não. Nós estamos debatendo crime. Quer dizer, a política está nas páginas policiais.

CC: O senhor acredita que essa nova crise do partido tem relação com o fato do PT ter perdido seus grandes quadros em 2005? O PT vive uma crise de quadros?
 

LS: Sem dúvida, o PT foi decapitado em 2005. Sobrou o Lula, que nunca foi uma pessoa que se importou em dirigir o partido. Lula sempre falou para fora. Ele deixava a tarefa de falar para dentro para o José Dirceu. Então isso aconteceu com a perda de José Genoino, Dirceu, João Paulo e até em certa medida o afastamento do Palocci. Tudo isso fez com que o partido ficasse acéfalo. Não há mais quadros daquela geração com a mesma grandeza. Agora o problema é que o PT não tem renovação de quadros. É sobretudo um partido de governo que se afastou das suas bases sociais. Isso já é até um chavão, todo petista reconhece. E pelo menos 80% dos quadros atuais do partido são pessoas que entraram depois que o Lula chegou ao poder. Pessoas que nem sempre têm os valores do PT do passado. Existem também aqueles que já eram dirigentes do PT no passado e se tornaram neopetistas. Ou seja, têm um discurso republicano oco para fora e uma prática carreirista, com nepotismo e favorecimento próprio.

CC: O fato de alguns petistas definirem a Dilma mais como um quadro do PDT do que do próprio partido é reflexo disso? Isso explica a crise entre governo e as correntes internas da legenda?
 

LS: O problema da Dilma é que ela não é nem um quadro histórico do PT, nem tem a dimensão do Leonel Brizola. Ela não pode fazer um governo personalista, “acima das classes sociais”, como fez o próprio Lula, em certa medida, porque ela não tem passado histórico e nem mesmo a competência política. Mas eu acredito que o problema não está nela, o problema está na economia que não sustenta mais aquele pacto social rentista que manteve o governo Lula. Está também na dificuldade que o PT tem de governar nesse presidencialismo de coalizão.

CC: O senhor acha que o PT errou ao não fazer a luta de classes por acreditar que esse “pacto” em que todos ganhavam não teria fim? 

LS: É difícil dizer o quanto o partido errou. Na verdade, [o pacto] era um rumo que o partido tomou no fim dos anos 1990 ao fazer alianças para governar para todas as classes sociais. Não foi uma decisão tomada num dado momento. Foi uma evolução histórica de um setor majoritário do partido. Agora esse modelo só conseguia se sustentar enquanto a economia estava crescendo. O que o PT talvez tenha se equivocado era não prever o momento em que o cobertor se tornaria curto para cobrir todo mundo. Só que nesse momento ele teria que fazer opções, mas as opções levariam à radicalização. E a radicalização é tudo aquilo que o petismo governista jamais quis. Então é uma situação aparentemente sem saída. Radicalizar significaria na verdade taxar grandes fortunas, prejudicar o grande capital e transferir recursos para serviços públicos que beneficiassem a própria classe média, que é tão descontente com o governo petista. Mas essa seria uma decisão que acirraria a luta de classes e abriria um horizonte muito incerto para o partido. Conhecendo dirigentes do PT, eles jamais ficariam com isso.

CC: Mas, pelo antipetismo manifestado em ocasiões como essa do ‘panelaço’, não acirrar a luta de classes não evitou que isso acontecesse... 

LS: Você matou a charada. O erro do PT é esse. O partido jamais quis acirrar a luta de classes, mas o modelo de governo que ele constituiu, que elevou uma parte das classes pobres socialmente, acirraria inevitavelmente a luta de classes. A luta de classes vai se acirrar independente da vontade do PT. Pela vontade do PT é que ela não aconteça, e que haja conciliação. Então não é um partido preparado para um radicalismo que existe hoje na sociedade. Até porque o PT já foi no passado, mas desde 2002 tem mantido os movimentos sociais ligados a eles adormecidos. E já surgiu uma nova militância nas ruas, tanto à direita, que é menor e mais desorganizada, quanto à esquerda, que é mais organizada, que não tem mais nada a ver com o PT. Então eu acho que, embora a gente não possa comprovar ainda, junho de 2013 deu a certeza a esses estratos médios críticos ao PT que o partido não consegue mais colocar seu exército nas ruas, para usar a expressão do Lula. O PT foi expulso das ruas em junho, ficou indeciso entre a condenação e o apoio. Enfim, junho foi o primeiro movimento de massa desde as greves do ABC e as Diretas Já da qual o PT não participou.

CC: Então, ao manter adormecido os movimentos sociais ligados ao partido, o PT ajudou a criar movimentos populares capitaneados pela classe média tradicional? O governo Dilma deveria ter iniciado suas ações de olho na classe média?
 

LS: Para lidar com a classe média tradicional, o PT teria que ter feito outro tipo de governo. Um governo que atendesse parte em desejo dos setores médios, que reclamam que pagam muitos impostos e tem serviços públicos ruins. E, ao mesmo tempo, fazer o que ele fez. Levar os mais pobres a um padrão de vida decente. Mas o PT não fez isso no seu governo. Só fez uma parte. A outra coisa é que o PT tinha que ter deixado de demonizar a classe média no seu discurso. Esse vasto setor público, do mundo corporativo, de pequenos comerciantes, é enorme em São Paulo, por exemplo. O PT teve um discurso agressivo contra aqueles que, em tese, queria conquistar. A classe média não é necessariamente reacionária, como o PT diz. Na história do Brasil, ela já teve um comportamento reacionário como, por exemplo, nas vésperas do golpe de 1964, mas se deslocou à esquerda no final dos anos 1970 e sustentou grandes mobilizações nos anos 1980. Tinha até uma certa simpatia pelo PT. Então não é algo imutável, mas o PT não tem capacidade de operação política para mudar isso a curto e médio prazo.

CC: Além do antipetismo crescente, o governo Dilma parece já ter conseguido perder credibilidade junto a seus próprios eleitores. O senhor acha que existe caminho de volta para essa guinada neoliberal?
 

LS: O problema da Dilma é que ela foi rápida demais. Isso pareceu um estelionato eleitoral para as pessoas que nem são petistas, mas se engajaram na sua campanha com medo da vitória do PSDB. Ela, em pouco tempo, renegou tudo o que havia dito em sua campanha eleitoral. Mas o PT tem uma base social mais abaixo, digamos assim, que é fiel. Ela não é maioria na sociedade brasileira, mas ela é bastante numerosa. Pessoas muito pobres, até com toda razão, temem a queda do governo Dilma porque isso significaria para elas a queda daquilo que elas conquistaram. O problema é que essa camada social, mais pobre e mais fiel, ela não foi representada na arena política. Não foi organizada pelo próprio PT. É um outro equívoco do PT. Jamais ter tentado organizar essa nova base social.

CC: Como o senhor enxerga o futuro do PT depois dessa trajetória, incluindo “mensalão” e Lava Jato e o antipetismo? O partido tem condições de se reciclar independentemente de vitória ou derrota em 2018?
 

LS: Em primeiro lugar, se o Lula de fato for candidato em 2018, ele seria a salvação do partido, mesmo que não seja eleito. Certamente ele mobilizaria a sociedade em torno da campanha do PT. Se o PT levar à frente os indícios de renovação que tem aprovado no Congresso, como, por exemplo, a limitação do número de mandatos de seus parlamentares, coisa que a gente tem dúvida se vai acontecer, pode ser que o partido continue tendo importância política e ideológica. Mas essas coisas são incertas. Geralmente, diante das crises, a gente tem visto que os dirigentes do PT primeiro se escondem e jogam ao mar aqueles que aparecem na lista. Independentemente do que as pessoas possam achar do escândalo de 2005, cabia ao partido naquele momento ou condenar totalmente aqueles dirigentes ou defendê-los. Do ponto de vista político, a saída para o PT deveria ter sido acirrar a luta política e defender os dirigentes. Mas simplesmente o PT agiu de forma errática. Dirigentes se escondendo...o caso do Delúbio Soares é paradigmático porque ele foi expulso do PT e depois voltou. Como é que o partido pode explicar uma coisa dessa? Se ele foi expulso, não deveria mais retornar ao partido. Naquele momento, o partido considerou que ele era uma pessoa que feria os preceitos éticos.

CC: É a mesma postura que o partido tem tomado diante das denúncias da Lava Jato... 

LS: Você compara a nota do PSDB e a nota do PT [sobre o caso]. Salvo engano, a nota do PSDB defende o [Antonio] Anastasia. O PT não defende os seus deputados que estão na lista. Então a primeira coisa que o partido deveria fazer é dizer que acredita na inocência dos seus senadores. Mas não faz isso. O PT, claro, é também um partido muito dividido. Sempre há no partido aqueles que esperam lucrar com a queda do outro. Mas acontece que em um momento de crise tão grave como esse e tendo já a experiência do que foi o "mensalão", o PT deveria, no mínimo, fazer uma defesa pública das pessoas que apareceram na lista.

CC: Então, fazendo uma análise da história do partido, o senhor acha que o PT ainda é um partido de esquerda?
 

LS: Eu acho que o PT é a esquerda que o Brasil conseguiu ter. Entre os grandes partidos, que tem significação política-eleitoral no Brasil, o partido é partido da esquerda. Obviamente que se a gente pudesse falar de partidos nanicos aí sim, existem partidos com um programa mais radical. Mas no jogo político que interessa o PT é o partido que a esquerda conseguiu ter. Ele vive uma crise que tem raízes no ambiente político em que atua, na sua trajetória histórica, mas também no ambiente da América Latina. Não é à toa que o governo Maduro está em crise na Venezuela. Há uma crise econômica que está deteriorando as bases desse pacto social-rentista. Governos que pregam ideais de esquerda, mas fazem políticas sociais e econômicas visando a conciliação de classe. O caso da Venezuela é mais radical porque lá se prega o socialismo mas se mantém o capitalismo.

CC: Durante o fim de semana, foi noticiado ainda que o governo Dilma Rousseff teria tentado se aproximar do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com o objetivo de se unir nesse momento de crise. Para o senhor, qual o significado por trás dessa postura?
 

LS: Esse sempre foi o sonho de consumo de uma ala do PT, desde os anos 1990. O José Genoino, o Eduardo Jorge, quando era do PT, sempre defenderam essa aproximação. A própria Luiza Erundina. No momento em que o Fernando Henrique se tornou ministro do governo Itamar, houve muita pressão interna no PT para que o partido apoiasse o governo e fizesse uma aliança com o Fernando Henrique. Também era o sonho de alguns tucanos. Você deve se lembrar que o Fernando Henrique chegou a dizer uma vez que o problema do PT e do PSDB é que eles comandavam setores atrasados. Uma aliança entre os dois, que eram partidos modernos, era impossível devido à polarização ideológica que já havia. Eu acredito que esse talvez seja um sonho da Dilma. Nos últimos anos o PT e o PSDB se tornaram inimigos irreconciliáveis, mas a Dilma não é um quadro histórico do PT. Talvez ela sonhe uma saída dessa crise com uma aproximação do PSDB. Agora ela está fazendo um mandato biográfico. Ao contrário do partido, que, como partido, precisa sempre pensar na luta pelo próximo mandato. E ao contrário do próprio Lula também, que tem pretensões de voltar a ser presidente. Mas só que essa aproximação é bastante improvável. Já que a pergunta é: o que os tucanos ganhariam com isso?

Fonte: CartaCapital
Por Renan Truffi
 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

 "A ÚNICA GARANTIA SÃO OS 

REPASSES PARA OS OUTROS PODERES"


Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o secretário Obery Rodrigues reafirma o esforço do Governo do Estado para garantir o pagamento dos salários dos servidores – e mais o restantes do 13º salário – nos próximos meses, mas afirma que essa garantia depende da confirmação da receita no período. Na conversa, ele analisa os esforços para cortar R$ 293 milhões na reta final da administração, mas não detalha o montante da dívida que o Executivo deixará para o próximo ano: “O nosso propósito é encerrar o exercício com um estoque de dívidas junto a fornecedores compatível com as receitas de competência do exercício 2014”, explica. Eis a entrevista:

Já existe algum dado preliminar, nesse quase um mês após a publicação da mensagem da governadora no dia 16 de agosto, que aponte a redução dos gastos da máquina?

Em primeiro lugar, é importante esclarecer que, do ponto de vista do controle orçamentário e financeiro, o Poder Executivo já tinha adotado medidas de limitação de empenho ou contingenciamento de dotações de despesas de custeio e investimento desde o início do ano, com a publicação do Decreto de Programação Financeira 24.141/14, publicado em 31/01/14, preservando as áreas de saúde, segurança pública e educação. Então, os órgãos das demais áreas já tiveram que reduzir compulsoriamente em 25 % as suas despesas de custeio. E, no caso dos investimentos, buscou-se preservar os recursos para garantir o aporte de contrapartidas de convênios e operações de crédito. 

Onde, prioritariamente, o Executivo está cortando ou vai cortar despesas? Isso já está sendo feito, de que forma?

Considerando a decisão de preservar, dentro do possível, os recursos para as áreas de saúde, segurança e educação, todas as demais foram afetadas pelos cortes orçamentários e, mesmos nessas, buscou-se preservar aquelas despesas que são indispensáveis pela importância das ações pelo benefício direto ou indireto à sociedade, a exemplo do sistema penitenciário, que precisa funcionar, do apoio à população rural, principalmente em razão da estiagem, do suporte a infância e ao adolescente, este inclusive, por decisão judicial. Mas o fato é que essas demais áreas participam com apenas 27 % das dotações de custeio e investimento bancadas com fontes de recursos do Tesouro do Estado. Isso significa cerca de R$ 240 milhões em 2014, e um corte de 25 % significa R$ 60 milhões, ou seja, apenas 20 % dos R$ 293 milhões que o Poder Executivo precisa cortar, este ano, para alcançar o equilíbrio entre receita e despesa.
   
Pelos cálculos, e planejamento, onde está a maior redução de despesas pretendidas no Executivo?
De fato, até este mês, excluindo saúde, segurança e educação, já se reduziu o empenho de despesas de custeio e investimento em cerca de 47 %, ou seja, R$ 112 milhões. E é verdade que se reduziu cerca de 14 % nas áreas saúde e segurança, que significa cerca de R$ 90 milhões. O grande esforço é cortar as despesas com menor potencial de afetar a prestação de serviços essenciais à população. É difícil, mas muitos órgãos estão conseguindo e não se pode negar o fato de que, ainda assim, falta recursos para atividades essenciais, principalmente na saúde.

O senhor já fez referência ao grau de comprometimento decorrente do aumento nas despesas com folha de pessoal. Mas há decisões judiciais que obrigam o governo a convocar, por exemplo na área da segurança pública. Qual a orientação nesses casos?

De fato, há decisões judiciais que obrigaram a contratação de mais servidores e, também, a implantação de aumentos para algumas categorias. O governo, através da Procuradoria Geral do Estado tem recorrido em algumas dessas decisões, com pouco sucesso. Evidente que essas decisões têm tido impacto na despesa com pessoal, porém mais do que isso, têm sinalizado que não há limites a serem observados.

Há garantia de que os salários dos servidores não deixarão de ser pagos até o final do ano? Até mesmo os 80% restantes do 13º salário?
A única garantia que se pode dar é que o governo vai continuar transferindo os duodécimos ao Tribunal de Justiça, ao Ministério Público, à Assembleia Legislativa, ao Tribunal de Contas e à Defensoria Pública para que eles paguem em dia as suas despesas, inclusive as com pessoal e suas demais vantagens, que representam cerca de R$ 106 milhões/mês. Quanto aos salários dos servidores do Executivo, vem se fazendo um esforço para pagar, dentro do mês, os salários dos servidores ativos da segurança, saúde e educação, além dos que ganham  salários líquidos de até dois mil reais, o que totaliza R$ 170 milhões. Os demais, que estão recebendo no dia 10 do mês seguinte totaliza cerca de R$ 178 milhões. A nossa expectativa é que a previsão de receitas, até o final do exercício, se confirme ou tenham uma frustração menor que a verificada até o momento. Nos preocupa as notícias sobre o pífio desempenho da economia nacional, que inegavelmente interfere na arrecadação dos impostos. 

O Governo fez acordos com algumas categorias quanto às melhorias salariais. Diante do quadro de contenção de gastos, haverá condições de cumprir?
É preciso reconhecer que o governo não tem conseguido enfrentar a enorme pressão de algumas categorias mais organizadas por aumentos salariais que, comprovadamente, o Tesouro Estadual não tem condições de arcar. E, principalmente, nas áreas de maior impacto na despesa com pessoal, como educação, segurança e saúde. Na educação, o aumento foi de 93 % para os professores, na Polícia Militar, de 52 %, na Polícia Civil, de 41 % e a folha da Saúde aumentou 32 %. A tensão e o prejuízo à sociedade provocados pelas recorrentes greves e ameaças de greve em setores vitais, sempre com velados interesses políticos e com ampla repercussão na mídia, foram minando a capacidade de convencimento e reação do governo. No total, a despesa com pessoal do Executivo, entre 2010 e 2014, aumentou 43,5 %, que representa um acréscimo de R$ 1,46 bilhão no ano. O repasse aos Poderes aumentou 86 %, ou seja, um acréscimo de R$ 409 milhões. Então, isso representa um aumento de quase R$ 2 bilhões nessas despesas nesse período. Como a receita líquida do Tesouro aumentou cerca de R$ 1,5 bilhão, o sacrifício foi para o custeio e para o investimento, que hoje são menores que em 2010. Então, fica claro que a única saída para conseguir pagar a folha em dia é conter esses aumentos. 

As medidas de redução de despesas podem afetar o pagamento aos fornecedores?

O esforço para reduzir as despesas é justamente para poder pagar em dia os fornecedores do Estado. Aliás, a posição da SEPLAN sempre foi muito clara sobre essa questão. Embora se constate que sempre é necessário tornar o setor público mais eficiente, reduzir as suas despesas de custeio e melhorar a qualidade dos investimentos, ou seja, realizar mais com menos recursos, é preciso reafirmar que também é necessário se manter uma relação equilibrada entre as diversas categorias de despesa do Estado. Quando há uma forte preponderância das despesas com pessoal, que comprometem cerca de 84 % das receitas líquidas do Tesouro Estadual, evidente que se compromete a prestação de serviços à população. Todos sabemos que é preciso comprar insumos para os hospitais, abastecer os veículos das polícias, manter as escolas, investir na ampliação e melhoria da infraestrutura e isso tem um custo.  

Qual é a dívida hoje? Pela projeção da área econômica do Governo, quanto deve ficar de restos a pagar?

Esse é um dado dinâmico e que depende das expectativas de ingresso de receitas para pagá-las. O nosso propósito é encerrar o exercício com um estoque de dívidas junto a fornecedores compatível com as receitas de competência do exercício 2014. Lembro, apenas, que as dificuldades financeiras do Estado vêm de muito tempo. Quando se acumulou, em 2010, uma dívida de mais de R$ 600 milhões, só com recursos próprios do Tesouro de Estado, é porque naquele momento o governo já não tinha condições de manter os seus pagamentos em dia. O fato é que o esforço de reequilíbrio promovido em 2011 e 2012 foi afetado, de um lado, pelo aumento excessivo das despesas com pessoal de todos os Poderes e, de outro, pela queda das receitas do Estado em 2013 e que continua em 2014.    

Até o fim do ano, haverá cortes de pessoal terceirizados e cargos comissionados?

As Secretarias de Saúde e de Educação concentram cerca de 93% das despesas com pessoal terceirizados do Poder Executivo. São funcionários que trabalham nos setores de limpeza, preparação de alimentos, segurança etc nas escolas e hospitais. Os secretários dessas áreas afirmam que não é possível reduzir esse pessoal. Nos demais órgãos já houve uma redução de 26 %. Esses dados estão no Portal da Transparência do RN. Quanto a despesa com cargos comissionados, ela é hoje 12,2 % menor do que em 2010. São 1.588  cargos ocupados contra 1.675. Essa despesa representa cerca de 0,7 % da despesa total com pessoal do Poder Executivo. Isso significa cerca de R$ 2,4 milhões por mês. Se reduzir 30 %, significa uma economia de R$ 690 mil/mês. O problema, portanto, não é a despesa com cargos comissionados, embora essa questão seja sempre permanentemente levantada para desviar o foco da questão principal, principalmente por sindicalistas e políticos em véspera de eleição.   

Essa não é a primeira vez que o Executivo adota medidas para recuperar o equilíbrio, com vista à redução dos gastos e custos da máquina. Ano passado chegou a anunciar medidas. Quais os efeitos práticos? Elas funcionaram, e geraram quanto em redução de despesas?
É só ver no Portal da Transparência o comparativo das despesas de custeio, como material de consumo, serviços de terceiros e outras, para verificar que houve uma redução significativa.

Passado aquele primeiro momento após as medidas, o efeito delas continuaram? Ou as despesas voltaram a subir e por que?

Se comprova que a redução é progressiva. E reafirmo até que isso tem afetado a prestação de alguns serviços. Mas não adianta contrair despesas que não se possa pagar. Uma questão emblemática é a despesa com diárias. Basta ver o Portal da Transparência. Em 2010, essa despesa alcançou R$ 22,5 milhões contra R$ 11,3 milhões em 2013. Este ano vamos alcançar a meta de R$ 10 milhões. Se tivéssemos mantido o mesmo patamar, corrigido pelo aumento da receita, essa despesa deveria alcançar R$ 31,5 milhões. Então, houve uma redução real de quase 70 %.

Quanto o governo conseguiu economizar à época com aquelas medidas? Cada secretaria alcançou a meta dos 20% estipulada?

A meta, como já ficou claro, não é linear. Depende da característica da atividade de cada órgão e da concentração do tipo de despesa que pode ser reduzida sem maiores transtornos. Um exemplo do esforço que se fez foi a redução de despesas com locação de imóveis, onde se economizou cerca de 32 %. Isso significou cerca de R$ 4,5 milhões/ano.

Esse quadro implica e total falta de investimentos até o final do ano? As obras e projetos serão afetados?

A decisão é de garantir os investimentos em curso que são financiados com fontes de recursos de convênios e de operações de financiamento, assegurando recursos da fonte do Tesouro do Estado para as contrapartidas. Aliás, este governo deixará de herança recursos garantidos e significativos de convênios já firmados e de operações de financiamento já contratadas, a exemplo do Banco Mundial, só este da ordem de R$ 1 bilhão, o que garante novos recursos para investimento. 

Fonte: Tribuna do Norte 
Foto: Adriano Abreu

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"EXISTE UMA PROTEÇÃO

 AO EXECUTIVO"


A vereadora Izabel Montenegro (PMDB) é uma política que não mede palavras quando está em polêmica. Nesta entrevista, ela abriu o jogo e disse o que muitos políticos não têm coragem de falar a respeito do Ministério Público e da Prefeitura de Mossoró. Ela apontou uma série de possíveis irregularidades no Executivo que os promotores fazem vista grossa e não investigam.

O Mossoroense: A senhora tem feito algumas críticas ao Ministério Público, por quê?
 
Izabel Montenegro: Eu recebi esta semana uma enxurrada de notificações da Justiça que foi provocada pelo Ministério Público, que tem a obrigação de agir assim quando provocada. São ações para questionar ações de mil e poucos reais de diárias. Outras com valores um pouquinho maiores, inclusive uma em que eu fui a Brasília para participar de sessão solene em homenagem à abolição dos escravos em Mossoró, proposta pela deputada Sandra Rosado. Foi uma sessão que contou com a presença do saudoso Gonzaga Chimbinho, que era secretário de Cultura; com a atriz Tony Silva, que cantou o hino de Mossoró; e eu fui representando a Câmara, juntamente com o então presidente Júnior Escóssia. Ele questiona que a gente não deveria ter ido com diárias da Câmara. Ele questiona que na posse da governadora Rosalba Ciarlini a gente não deveria ter ido representando a Câmara com diárias. Depois, ele questiona que na posse do presidente do Tribunal de Contas a gente também não era para ter recebido diárias. Isso é uma ingerência, uma coisa descabida. Eu acho que a Justiça tem muitos processos para julgar, o da Operação Sal Grosso já tem milhões de páginas. Acho que devem ter reservado um quarto só para essa quantidade de papéis. Eu me indigno quando sei e vejo o prefeito interino(eleito) dizendo que foi deixado um rombo de 46 milhões de reais e nunca o Ministério Público, que não precisaria ser provocado porque a declaração do prefeito fala por si... O prefeito falou que há um rombo na saúde de 16 milhões, que há remédios superfaturados em 40% como a insulina, por exemplo... e nunca o Ministério Público foi investigar nada dessas informações que não são do meio da rua, são do prefeito de Mossoró.

OM: A senhora acha que há uma perseguição contra os vereadores?
 
IM: Não entendo porque essa perseguição. É como se na cidade de Mossoró só existisse desvio de recursos na “Operação Sal Grosso”. Aí eu faço questão de dizer: os empréstimos foram devolvidos na sua totalidade. O que deixou de ser pago por um período foi devolvido. Naquele momento ele tratou com dois pesos e duas medidas, porque dois vereadores foram inocentados. Eles pediram o mesmo empréstimo, no mesmo período e devolveram no mesmo dia, na mesma hora, minuto e segundo que os outros. Mesmo assim eles foram absolvidos. É como se houvesse muito mais do que se procurar corrigir a corrupção porque é uma perseguição pessoal, uma animosidade pessoal entre o promotor e alguns vereadores. Eu me incluo entre eles. Eu acho que fui penalizada por ser concunhada do ex-presidente da Câmara e tenho até um relacionamento muito difícil com ele. O promotor se equivocou. Eu tenho vários processos e passei a última semana recebendo oficiais de justiça que chegavam na minha casa de seis e meia da manhã. Isso não tem parado, tem assim... o que eu já gastei de advogado é quatro vezes mais do que o valor que foi pedido emprestado na sua totalidade. É como se ele só pudesse sossegar quando tirasse a paz de vez da gente, da família da gente. Teve assessores que passaram três meses na Câmara e estão respondendo a processos.

OM: Como assim?
 
IM: Teve pessoas que o promotor procurou, se fez de amigo e essas pessoas fizeram a delação premiada e estão todas como réus também. Esse processo é todo diferente, esquisito. É como eu disse: é uma perseguição pessoal sobre esse caso.

OM: O que te faz ter tanta certeza disso?
 
IM: Em Mossoró, a gente sabe, tem muita gente que nunca colocou um prego numa barra de sabão e ficou rica, empresária do dia para a noite. O próprio promotor sabe disso. Você jornalista fez uma entrevista com o promotor Eduardo em 2007, que tinha investigações mais amplas na Prefeitura e na Uern. Ele dizia que tinha indícios seriíssimos de desvio de recursos públicos e nunca foi dada uma resposta à cidade de Mossoró. Por isso a minha indignação. Ele deve, sim, investigar todos os poderes. Deve investigar a Câmara Municipal, mas nunca a gente foi sequer chamado para assinar um termo de ajustamento de conduta. Eu era vereadora de primeiro mandato e algumas coisas a gente chegou sem saber o que era correto. A Câmara sempre foi desestruturada com a sua administração e o setor contábil e a gente não foi preparado nem informado. Hoje não. A gente vive um momento diferente e depois que aconteceu isso se corrigiu e tem uma empresa contratada para fazer a prestação de contas da verba de gabinete.

OM: A senhora fez um pronunciamento muito duro com o Ministério Público.
 
IM: Eu gostaria que o Ministério Público se sentisse provocado com a minha cobrança no pronunciamento. Já foram vários pronunciamentos na Câmara Municipal de Mossoró e até agora o Ministério Público não deu uma resposta porque a lei de acesso à informação não é cumprida, apesar de ser lei, a folha de pagamento de 2012 da Prefeitura de Mossoró nunca foi publicada. É disso que eu quero resposta. Não que a gente faça os vereadores da “Operação Sal Grosso” bodes expiatórios. É como se toda a corrupção desta cidade tivesse sido praticada pelos vereadores. É uma injustiça. Tudo foi pago e devolvido.

OM: Qual a sua avaliação do comportamento do Ministério Público em relação ao Poder Executivo?
 
IM: Há dois pesos e duas medidas. Existe uma proteção ao Executivo. Não consigo entender a explicação. A gente sabe que nem tudo é perfeito, correto. Eu fui secretária em duas gestões. Todos os servidores da Prefeitura viajavam e nunca faziam uma prestação de contas. Teve gente que foi até ao exterior e nunca prestou contas de diárias.

OM: No governo de quem?
 
IM: Nos governos de Fafá e Cláudia Regina. O que eu estranho é que nunca foi pedida a prestação de contas de uma diária. Eu fui secretária e guardei as prestações de contas porque já passei por problema. Mas nunca foi pedido. Quem sabe quanto era gasto com essas viagens ao exterior para participar de feiras? Quantas pessoas foram por conta do poder público? A Promotoria precisa justificar para o povo de Mossoró o porquê de não ter feito nada após o prefeito dizer que a prefeitura tinha um rombo de 46 milhões de reais.

OM: Tem também a auditoria da folha de pagamento. Como a senhora analisa a exclusão dos vereadores?

IM: Fomos proibidos. Se criou uma comissão para que os vereadores participassem, mas foram proibidos porque existia um contrato de confidencialidade desse convênio entre a Uern e a Prefeitura. A gente sabe que isso não cabe na coisa pública. Temos a lei de acesso à informação. Não é opcional se divulgar. O Ministério Público está assistindo a isso e não toma nenhuma medida.

OM: Por que a senhora tem esse entendimento?
 
IM: A gente vê os próprios serviços públicos prestados na cidade e a qualidade desses serviços. O mossoroense precisa saber que são milhões em dinheiro público saindo pelo ralo e nunca foi tomada até hoje nenhuma providência. Essa é a minha indignação e vou continuar falando porque falo da “Operação Sal Grosso” de cabeça erguida. Não me envergonho. Trabalhei 32 anos da minha vida e sou aposentada hoje pela Caixa Econômica Federal e como vereadora em apenas quatro anos vi enxovalhar o nome de várias pessoas que trabalharam a vida toda com honestidade. Tudo que tenho hoje é uma casa para morar financiada pela Caixa e quitada pelo FGTS em 1998.

OM: Por que há o comportamento em relação ao Executivo?
 
IM: Isso para mim é inexplicável. A gente sabe que existem algumas parcerias em que o Executivo cede empregados e também emprega algumas pessoas. Isso dificulta que o Ministério Público seja mais imparcial. Aqui eu quero deixar registrado que não são todos os promotores: eu respeito a instituição Ministério Público e sei que ele tem prestado relevantes serviços ao meu Estado e a minha cidade. Mas o comportamento espalhafatoso com que foi feito, publicado e divulgado nessa “Operação Sal Grosso” é o que me indigna diante de tantas atrocidades, como é o caso de quando se desvia dinheiro público na saúde e vidas são ceifadas. Até hoje na cidade temos filas de cirurgias oncológicas enormes. Tem filas para cirurgias eletivas e a gente sabe que a maiorias desses recursos quando chega é desviada. O que falta é dizer que investigou.

OM: E o Tribunal de Contas?
 
IM: Sobre o Tribunal de Contas? Pelo Tribunal de Contas a Câmara estava aprovada 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008. Isso significa então que está tudo errado? Ou que estava tudo certo e a “Operação Sal Grosso” não deveria ter acontecido? Se a Prefeitura tem o atestado do Tribunal de Contas, a Câmara tem também. Mas a gente sabe e isso é a olhos vistos e eu dizia na Tribuna da Câmara de pessoas em Mossoró que compraram dois, três apartamentos e tem carros de mais de 160 mil reais. Isso aí é inexplicável. Eu acho que o Ministério Público deve uma satisfação à sociedade mossoroense.

OM: Essas pessoas que a senhora citou enriqueceram graças à Prefeitura?
 
IM: A gente conhece várias dessas pessoas. Eu tenho certeza de que isso é fácil checar. Hoje é obrigação de todas as construtoras e incorporadoras e concessionárias divulgar quem comprou carro, quem comprou apartamento. Tem que divulgar à Receita Federal. Se tivessem o interesse e a vontade de checar e descobrir esses desvios de recursos públicos era só pegar esses dados na Receita Federal e confrontar com o patrimônio dessas pessoas e veriam que é incompatível. Isso é bem simples. Basta querer. Falta vontade.

OM: Enquanto vereadora, a senhora já tomou alguma atitude?
 
IM: Eu enquanto vereadora da oposição, em 2005, fui ao Ministério Público pra ver a questão da iluminação pública de Mossoró que sempre foi superavitária e investia menos.

OM: Os requerimentos rejeitados também serviriam de mote para o Ministério Público?
 
IM: Olhe... com certeza. Você lembra que o próprio Ministério Público informa que começaram as investigações sobre a Câmara que resultou na Operação Sal Grosso depois que a gente aprovou uma lei, que na oportunidade eu votei contra, efetivando 13 funcionários. Dizem que o Ministério Público se sentiu provocado ali. Como esse mesmo Ministério Público não se sente provocado hoje com o prefeito falando sobre o rombo, falando sobre superfaturamento. Isso é inexplicável não haver hoje algum procedimento do Ministério Público. Ele esteve no Tarcísio Maia, na Máfia dos Homens de Branco e ali morreu. Botaram uma pedra em cima. A única coisa que satisfaz o ego é a “Operação Sal Grosso”.

OM: Saindo dessas polêmicas com o Ministério Público e indo para a política. Como a senhora analisa o resultado da eleição suplementar?
 
IM: Essa eleição suplementar eu diria que foi bem atípica. O candidato Francisco José Júnior tinha uma vantagem muito grande de estar prefeito, onde a candidata Larissa Rosado foi às ruas de Mossoró e o juiz eleitoral passou os 21 dias da campanha dizendo que ela não poderia concorrer, que os votos dela não seriam computados e eu credito a isso. O maior cabo eleitoral do prefeito eleito foi a judicialização da eleição. Sem falar que é muito bom ter poder. Tinha 15 vereadores acompanhando o prefeito. Foi uma conjuntura, não foi de repente que Silveira saiu de uma eleição com pouco mais de 2.600 votos mais ou menos e passou para 68 mil votos. Nós tínhamos pesquisas com um percentual significativo da população que não conhecia o prefeito. Isso é bem natural que ele era vereador apesar de estar na quarta legislatura. Ele teve apoio dos 15 vereadores, teve a questão de Larissa estar sub judice que foi a principal e mesmo assim não entendi muito o resultado. O “fedback” que a gente recebeu nas ruas de Mossoró é de uma receptividade muito boa para a deputada. A explicação mais plausível que eu tenho é essa.

OM: A senhora concorda com a tese de que essa eleição prejudica a candidatura ao governo de Henrique Alves?
 
IM: Não. Eu acho que cada eleição tem uma história diferente. Claro que existe o casamento de uma eleição para outra. Foi bom, claro, para o vice-governador Robinson Faria ter o apoio da Prefeitura de Mossoró que já levou o DEM ao Governo do Estado. A gente não pode dizer que isso não é importante. Mas eu não acredito que isso vá comprometer porque as pessoas sabem e devem ter consciência, apesar de Henrique não ser o deputado que está todo dia em Mossoró, mas está todo o final de semana no Estado... a gente sabe dos benefícios, do poder de articulação, do prestígio que o deputado tem em Brasília haja vista ele ter 44 anos de parlamento e ser respeitado e articulado. Eu acredito que Henrique com esse arco de alianças que ele formou em torno do seu nome tem muitas chances de vitória e nós trabalharemos se Deus quiser para isso. Mas a eleição de Mossoró com certeza fortaleceu um pouco o projeto de Robinson Faria.

OM: No PMDB existe uma disputa de comando entre a senhora e o grupo da ex-prefeita Fafá Rosado pelo comando do partido e ela tem feito um trabalho na imprensa. Até onde Fafá acrescentou ao PMDB?
 
IM: Todo mundo tem voto. Todos são benvindos porque uns têm cinco, outros têm dez, outros mil e outros dez mil. Quando Fafá se filiou ao PMDB trouxe apenas 23 pessoas. Em Natal, na minha presença, na do deputado Leonardo e do vice-prefeito Wellington Filho ela prometeu ao deputado Henrique que iria fortalecer o PMDB trazendo uma série de técnicos e o pessoal da construção civil, do sal e da fruticultura. Ela não conseguiu. A gente sabe que é diferente quando você está no poder. Quando ela esteve no poder ela fortaleceu o PV que no seu governo teve oito secretarias e o PMDB só tinha uma fundação sem orçamento. Quando a ex-prefeita foi falar que queria ir para o PMDB é, claro que o PMDB, política se faz somando, achou bom porque ela tem os votos dela. Mas eu acho que ela está cometendo novamente um equívoco quando vai à imprensa tentar subestimar o meu valor porque sou uma simples vereadora e ela é uma ex-prefeita e o marido dela é deputado. Mas eu construí ao longo desse tempo um relacionamento de confiança.

OM: A senhora se refere à divergência de Fafá.
 
IM: Aí nesse momento o ministro e o presidente Henrique Alves precisavam dos peemedebistas de Mossoró para o projeto deles que passava pelo apoio do PSB e retirada do nome de dona Wilma que era candidata a governadora e estava em primeiro lugar nas pesquisas e abriu mão do projeto de Henrique. Ela faltou com o PMDB na primeira oportunidade que nós precisamos, mas achamos que ela tem os votos dela.

OM: Ela foi decisiva na eleição suplementar?
 
IM: Não foi somente ela quem deu a vitória. Foi um conjunto de fatores que deram a vitória ao prefeito eleito Francisco José Júnior. Ela chegou com os votos que ela tinha, mas cometeu um equívoco de ficar num palanque diferente. Ela disse que não subiria no palanque de Sandra e Larissa. É o mesmo palanque que estaremos em outubro e ela sendo candidata a deputada federal estará nesse palanque. Henrique estando em Mossoró, ela não vai subir nesse palanque? Eu acho que política a gente não faz guardando ódio em geladeira. A gente precisa descer do palanque da eleição suplementar e começar a pensar e ter outra postura e não querer diminuir os companheiros do PMDB porque ela pode ter levado alguns suplentes de vereador e o vereador Claudionor, mas outros ficaram conosco e nós conseguimos, inclusive, nos aproximar mais do PMDB histórico apesar dela ter feito visitas e provocar um fiapo no PMDB. A gente sabe que aquelas pessoas que são fieis e votam por amor por acreditar que o projeto do PMDB é o melhor seguiram a orientação de Henrique.

OM: Vamos ter duas eleições para presidente da Câmara. Como a oposição vai se comportar?
 
IM: A oposição vai tentar compor o melhor projeto para a Câmara. Entendemos que é muito importante o poder legislativo e que o presidente da Câmara tem que ser uma pessoa que tenha condições de gerir o poder legislativo e conseguir que não seja apenas um apêndice do poder executivo. Vamos compor com quem tiver o melhor projeto. Precisamos de um presidente com esse perfil. Que conheça os problemas e ajude a buscar as soluções para os grandes gargalos da nossa cidade.

OM: Quem tem esse perfil?
 
IM: A gente sabe muito bem quando deve retirar o nosso bloco. Eu tinha a pretensão de disputar a presidência da Câmara, mas infelizmente nós perdemos o pleito e está mais para a situação. Vejo com bons olhos o vereador Jório e o vereador Soldado Jadson. Existem outros vereadores que tem condições, mas existem algumas coisas nos perfis desses vereadores que já dificulta uma aproximação com o grupo da oposição. A oposição está unida, coesa e a gente vai votar junto. Teremos sete votos porque o vereador Lucélio vai assumir na hora de votar. Mas nós estamos todos juntos nesse projeto. Tem pessoas sem experiência dizendo que pode ser eleger sem os votos da oposição. Uma pessoa dessas não tem experiência nem capacidade de gerir o poder legislativo municipal.

OM: Quem foi?
 
IM: Eu gostaria de preservar o nome, mas daí você já vê o nível dessa pessoa que é candidata a eleição do mandato tampão que pode ter uma surpresa com a eleição do vereador Alex Moacir e aí como você pergunta: o prefeito vai deixar eleger um vereador da oposição? Eu respondo que ele é fruto de uma engenharia política dessas. Ele foi eleito na oposição, mas teve a composição com a prefeita Cláudia Regina. Então tudo é possível. O que a gente quer é um poder legislativo forte.

Fonte: O Mossoroense
Por Bruno Barreto - Editor de Política


quarta-feira, 2 de abril de 2014

"SOMOS A LOCOMOTIVA

 QUE PUXA A ECONOMIA"


O empresário Flávio Rocha, presidente da varejista de moda Riachuelo, aprecia a velocidade. Por conta dessa paixão, em 1982, aos 24 anos, ele convenceu sua família, que controla o grupo pernambucano Guararapes, conglomerado que atua nos setores têxtil, financeiro e logístico, a patrocinar um piloto iniciante da Fórmula 3: o novato atendia pelo nome de Ayrton Senna. Em 2007, ele apostou novamente na velocidade ao implantar o modelo fast- fashion na Riachuelo. Não por acaso, ele compara o papel do varejo na economia a um trem-bala. “Estamos na era do varejo”, diz. Rocha recebeu a DINHEIRO em seu escritório, em São Paulo, para falar sobre moda, economia e até sobre o “rolezinho”. Confira os principais trechos da entrevista.

DINHEIRO – Nos últimos meses, grandes varejistas de moda, como as americanas Forever 21 e GAP, desembarcaram no Brasil. É um sinal de que o varejo está evoluindo?
FLÁVIO ROCHA – O varejo brasileiro é uma somatória de dois planetas completamente diferentes. Temos o que chamamos de varejo de alta performance, que não deve nada aos mercados mais avançados. Mas, ainda há uma grande parte, que representa cerca de metade do setor, constituída por empresas precárias e informais. É um tipo de comércio que mudou muito pouco desde a Idade Média. Essas duas metades se neutralizam, e uma tira a competitividade da outra. A consequência desse cenário foi a paralisação do varejo brasileiro desde os anos 1980 até agora. Nesse período, o Brasil ficou de fora da revolução proporcionada pela adoção do código de barras, por exemplo. 
 
DINHEIRO – Que revolução foi essa?
ROCHA – Quando Sam Walton (fundador do Walmart) implantou o código de barras na sua rede, na década de 1980, virou a cadeia de suprimentos de cabeça para baixo. Até então, ela era puxada pela produção. Com a possibilidade de saber em tempo real e na boca do caixa o que as pessoas estavam realmente consumindo, todo esse processo passou a ser comandado pelo varejo, com base nas demandas, e não na oferta. Se antes a inteligência estava na indústria, a capacidade de ler a vontade do consumidor deu ao varejista o poder de traçar sua estratégia. Isso demorou a chegar ao Brasil. A grande transformação que estamos vivenciando no momento é essa: a substituição de uma cadeia de suprimentos, puxada pela indústria e pelo agronegócio, por uma cadeia de demanda, tendo o varejo como a locomotiva. 
 
DINHEIRO – Na última década, a nova classe média brasileira puxou o crescimento do varejo. E daqui para a frente?
ROCHA – Nessa transformação do Brasil em um país majoritariamente de classe média, o varejo teve um papel muito importante. A democratização do crédito se deu via capilaridade das redes varejistas. Estamos vivendo a era do varejo. Nós somos, hoje, a locomotiva do trem-bala que puxa a economia e a cadeia de suprimentos, e não, como era até bem pouco tempo atrás, o último vagão da maria-fumaça da cadeia empurrada pela produção. Nossa preocupação é tornar esse modelo sustentável. Agora, para isso, a pior solução é você parar a locomotiva. Não precisamos esfriar a demanda. Precisamos azeitar os vagões que vêm atrás. Isso significa lutar contra a queda vertiginosa de produtividade que a economia tem apresentado. A luta é contra o chamado “custo Brasil”. Precisamos melhorar a qualidade de vida, mas via au­­mento da produtividade. 
 
DINHEIRO – Essa queda de produtividade é o motivo pelo qual a indústria enfrenta dificuldades, enquanto o varejo apresenta bom desempenho no País?
ROCHA – Ao mesmo tempo que o salário mínimo calculado em dólar triplicou, houve uma queda de competitividade. O Brasil ficou caro. A produção brasileira está extremamente onerada. Nos setores de varejo e serviços, a competição se dá territorialmente. Por isso eles conseguem lidar com esse aumento de custo de forma mais tranquila. Para quem compete internacionalmente, e a indústria é o melhor exemplo, é fatal. 
 
DINHEIRO – Onde mais cresceu o “custo Brasil”?
ROCHA – Imposto já foi a parte mais importante. Hoje, o mais preocupante é a complexidade do ambiente de negócios. Muitas leis, que são feitas com a melhor das intenções, como as de proteção ao consumidor, acabam aumentando o custo. Daí o efeito é contrário. Em vez de beneficiá-lo, o prejudicam. Por isso, te­­mos o iPhone mais caro do mundo. 
 
DINHEIRO – Essa complexidade não beneficia as redes brasileiras, uma vez que afasta competidores internacionais? 
ROCHA – É um ciclo vicioso. Com o aumento do custo Brasil, você tem de subir o muro protecionista, o que leva à perda de competitividade e a novo au­­mento do protecionismo. Mas é possível transformar esse ciclo vicioso em virtuoso, aumentando a competitividade bra­­­sileira. A redução do protecionismo tem de vir acompanhada de uma simplificação dos fatores normativos, tributários e regulatórios, que estão tirando o País do jogo competitivo.

DINHEIRO – Não cabe também às empresas, aumentar a produtividade, reduzindo desperdícios e adotando práticas modernas de gestão?
ROCHA – O desperdício no varejo brasileiro é um dos menores no mundo. Obviamente, refiro-me ao varejo de alta performance. Se considerarmos a parte informal do mercado, esse desempenho piora. Mas os grandes vilões da competitividade são o excesso normativo, a complexidade tributária e o aumento dos gastos públicos. O Japão, por exemplo, tem 1,5 mil ações trabalhistas por ano, os Estados Unidos, 15 mil. No Brasil são 3 milhões de processos. 
 
DINHEIRO – Grandes redes de varejo, como a Zara e a Restoque, no entanto, estiveram envolvidas em episódios de trabalho escravo. Isso não demonstra que as empresas também são responsáveis por essa realidade?
ROCHA – Sim. Eu podia até usar esses episódios para tripudiar em cima de concorrentes. Não tenho nenhuma dúvida quanto à ética das empresas mencionadas. Mas o desafio de manter o controle de sua produção é muito grande, levando em consideração que a atividade de confecção só sobrevive por meio do regime tributário do Simples. Tal regime traz um enorme benefício, mas também uma dificuldade, que é a questão da escala. O Simples impõe ao elo principal da cadeia, no qual estão 80% dos empregos, uma limitação de escala muito grande. Isso leva à precariedade das relações trabalhistas. Hoje, quando uma oficina começa a atingir o limite do Simples, ela subloca para outra, que subloca para uma terceira, tornando o rastreamento muito desafiador. São, literalmente, milhares de pequenas oficinas. É preciso fazer um redesenho da cadeia têxtil. 
 
DINHEIRO – As empresas que mantêm a produção sob seu guarda-chuva, como a Riachuelo, levam vantagem em relação às que terceirizam a maior parte?
ROCHA – Ter a cadeia integrada possibilita duas coisas: baixíssimo custo e velocidade. É isso que define o “fast-fashion”. É o que a Forever 21 reinseriu nos Estados Unidos. Desde os anos 1980, a atividade de confecção estava extinta no país, tinha migrado toda para a Ásia. Isso trouxe uma grande vantagem em termos de custo, mas tornou o processo de criação demorado. Leva meses para chegar um navio com a coleção mais recente produzida no exterior. A Forever 21 ressuscitou essa atividade internamente e, com isso, passou a ter uma velocidade que os concorrentes não tinham. O que você via nas lojas das outras redes estava na prancheta um ano atrás. No caso deles, o tempo que uma peça leva da prancheta até a loja é de um mês. 
 
DINHEIRO – As principais varejistas que atuam no Brasil estão adotando esse modelo, como é o caso da Renner. Como o sr. vê essa concorrência?
ROCHA – Aí entra uma questão conceitual. O fast-fashion foi uma expressão cunhada na Harvard Business School, em 2000, a partir de um estudo de caso da Inditex (grupo espanhol que controla a Zara). Esse modelo vai além da mera verticalização. Ele pressupõe uma integração de toda a cadeia. Indústria e varejo sob o mesmo guarda-chuva. Nós estamos até mais avançados, porque pegamos desde o desenvolvimento do fio até a parte financeira. 

DINHEIRO – Como o sr. vê o desenvolvimento desse modelo? Mais recentemente, surgiu a japonesa Uniqlo, que trouxe a alta- costura para o fast-fashion. 
ROCHA – Nosso modelo tem benchmarks de Uniqlo e Zara. Os japoneses são mais voltados a produtos básicos, com gigantescas cartelas de cores. Você não encontra produtos criados em suas lojas. São clássicos. Já a Zara é mais moda. São produtos de vida curta. Nosso desafio é, justamente, proporcionar ao consumidor aquilo que a China e a Ásia não conseguem: velocidade. Estamos voltados para a produção de moda. Ao mesmo tempo, temos nossos produtos básicos, que respondem por metade do negócio, e são mais previsíveis. 
 
DINHEIRO – O sr. comentou sobre a revolução do código de barras. Hoje temos em curso outra revolução, proporcionada pela internet. De que forma as redes sociais estão mudando o mercado da moda? 
ROCHA – Com a internet, a revolução iniciada pelo código de barras, que informatizou a cadeia, chega à casa do consumidor. Paralelamente à internet, há a identificação por radiofrequência, chamada de RFID. Essa tecnologia permite rastrear todas as etapas do processo, desde a saída do produto da fábrica até o momento em que ele é consumido. Isso tudo alarga os horizontes dos varejistas. Não é só a venda online, é a integração da empresa com seus clientes. Antes, o ciclo de aprendizado das empresas de moda acontecia a cada estação. Hoje, é a cada dez dias. 
 
DINHEIRO – O varejo brasileiro tem dificuldade para entender os consumidores, especialmente os da classe emergente?
ROCHA – Sem sombra de dúvida, o cliente mais incompreendido é a nova classe média. A única diferença entre uma pessoa de baixa renda e uma pessoa de alta renda é o seu orçamento. Cada vez mais a informação é universal. Em moda, isso é evidente. As empresas que erram violentamente são aquelas que pioram seus produtos para vender para a classe C. O orçamento pode ser diferente, mas as aspirações e o senso estético são os mesmos. Nossos maiores sucessos comerciais foram produtos pinçados do mercado de luxo, que vendemos com um zero a menos na etiqueta. A renda está se democratizando gradualmente. Mas a informação já foi democratizada. 
 
DINHEIRO – Qual é sua visão sobre o fenômeno do “rolezinho”?
ROCHA – São celebridades de universos menores da periferia, que têm seu poder de comunicar e seus seguidores, que não estão na comunicação de massa. Tudo isso está sendo usado por oportunistas notoriamente minoritários para suas causas individuais. Não vejo nenhum traço de hostilidade ou agressividade no rolezinho.

 Fonte: Isto É Dinheiro
Por Rodrigo Caetano